Posts filed under ‘Sra.Z’

A teimosia da Sra. Z

A Sra. Z não entende: ela não entende a dor do mundo, o silêncio, o vazio. A Sra. Z não entende porque há que se complicar tanto, quando se quer uma coisa só. Mais que todo o resto, a Sra. Z não entende de onde vem essa busca incessante da lágrima, no lugar do gozo.

A Sra. Z não desiste: ela não desiste de seguir seu caminho e de ver terras novas. A Sra. Z acredita que há terras novas, campos de lavanda e videiras. A Sra. Z acredita no perfume dos bosques de eucalipto e na cor dos campos de gérberas. A Sra. Z sabe que é tudo passageiro, mas não é por isso que vai abrir mão de ver.

A Sra. Z não pára: ela jamais interromperá sua caminhada. Enquanto lhe for permitido, a Sra. Z buscará naqueles campos de lavanda, nos bosques, a resposta que procura. A resposta que lhe fará plena, o fim de todas as coisas. Mesmo sabendo que não há plenitude, enquanto há vida. Mesmo sabendo que todo fim leva a um novo começo.

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quarta-feira, 24 outubro at 12:00 pm 7 comentários

As garotas da Sra. Z

A Sra. Z não consegue imaginar o que seria da sua vida sem essas garotas. Não que os garotos não sejam importantes, mas é nessas garotas que ela se espelha quando as coisas apertam. Pudesse, a Sra. Z engoliria uma por uma, num ritual antropofágico para tornar-se invencível.

[Embora sozinha ela não dê conta de muita coisa, junto com essas garotas a Sra. Z é invencível.]

E são tantas essas garotas. De tantas origens, de tantos jeitos. Tem a garota morena, que dança Carimbó, com seu jeito de moça brava e sua dedicação tremenda. Com ela a Sra. Z aprendeu a fazer tudo com paixão. Com ela a Sra. Z aprendeu a se atirar, que não é mau tomar partido. Vem dela a paixão pelas coisas da terra, pelo cheiro de andiroba e pelos bombons de cupuaçu.

Também tem a garota da serra, de sorriso largo e pele de bebê. Dessa garota a Sra. Z aprendeu que é tudo é possível, se não não desistir. Que nada substitui o trabalho duro e o mérito. Que há vários caminhos a seguir, basta olhar para o lado. Que as pessoas vêm e vão, mas uma vez marcadas na alma, não há o que faça o vínculo sumir.

[Algumas coisas acontecem tão rápido, e mesmo assim a Sra. Z sente como se já fossem décadas.]

E o que dizer, então, da garota de olhos verdes e cabelos de índia? Dela a Sra. Z aprendeu o que são amigos de verdade. Aprendeu a lutar pelos objetivos e a fazer limonadas de todos os limões que a vida lhe atira. Aprendeu que as coisas devem ser construídas. E que o tempo e o espaço, por mais que se coloquem de forma incisiva, jamais vão interromper laços entre irmãs que se escolheram.

Não se pode esquecer da garota da cozinha. De sorriso frágil e alma forte. Vencedora de todas as vicissitudes, que mostra a todo o momento que o caminho é você quem faz e que reclamar de nada adianta. Que luta e conquista suas coisas simplesmente porque merece. Porque faz por merecer.

E há outras garotas ainda: a garota dos gatos que mostra como ser ora frágil, ora forte, sem jamais perder a dignidade; a garota dos olhos azuis que lhe revela os segredos mais escondidos; a garota dos cabelos de mar, que provou que amizades surgem até nos momentos mais absurdos; a garota crescida que faz companhia nas horas mais necessárias. São essas garotas, todas elas, que a Sra. Z gostaria de levar consigo sempre, numa decisão de absurdo egoísmo.

Mas a Sra. Z sabe que não é possível, nem desejável, aprisionar suas garotas. O mundo precisa delas, sabe a Sra. Z, porque elas são raras. E, afinal, elas sempre estarão por perto. Porque vincos na alma não se desfazem tão facilmente.

sábado, 6 outubro at 2:43 pm 2 comentários

Depois da queda, o coice (mais uma da Sra. Z)

Do paraíso aos últimos círculos do inferno. O trajeto foi feito pela Sra. Z de forma repentina, sem perceber. Agora ela busca pelas águas do Lete.

A Sra. Z não desiste.  Ela sofre, chora, se flagela. Ela passa noites em claros com seus amigos C., F., E. e A. Mas sabe que vai passar.

Porque sempre passa. Basta desapegar.

sábado, 21 julho at 11:57 am 1 comentário

O despertar da Sra. Z

A Sra. Z olha para dentro e percebe a diferença. Sem hesitar, se sente completa, vivendo em plenitude.

Embora com medo, ela se vê no espelho. E o que vê ali lhe agrada. Não da forma que Eco agradava Narciso, ou como Narciso agradava o lago. O que agrada a Sra. Z é sentir-se vivendo a verdade. Aquela que liberta.

É o verdadeiro sentido da liberdade, esse encontrado pela Sra. Z. Nesse instante ela pode ter mil faces. Nesse instante, a busca deixa de fazer sentido. Encontrou-se.

sexta-feira, 8 junho at 3:06 am Deixe um comentário

O sonho lúcido da Sra. Z

A Sra. Z senta-se na platéia e se esconde no escuro. Apesar de acostumada às luzes, o escuro proporciona um conforto que há tempos não sentia.

E no escuro ela aprecia o que vê. A música que vem do palco a remete aos tempos de antes. Ela se lembra dos círculos dançantes no casamento de seus pais. Não, ela não estava lá, mas a memória está gravada em seu sangue.

Enquanto dança no meio do círculo, a Sra. Z percebe a presença dele. Seus olhares se cruzam e começam a dançar juntos. A exaustão vem acompanhada de sorrisos largos.

Nesse momento a Sra. Z se dá conta de que não há mais volta. E que, mesmo que houvesse, ela não quer mais voltar para o lugar de onde veio.

segunda-feira, 7 maio at 12:00 pm 1 comentário

A Sra. Z. e as dores do mundo

A Sra. Z. olha a seu redor e vê os destroços da guerra. Parece que há muito que não há vida ali. No entanto, alguns resquícios de humanidade não admitem escapar à sua percepção.

Os motivos de tanta dor não são compreensíveis para a Sra. Z. Essa mania demasiadamente humana de não admitir suas fraquezas quando isso poderia curá-las, essa resistência a admitir que tamanha violência não é maldade.

A Sra. Z. não acredita em maldade. A Sra. Z. não acredita em liberdade. A Sra. Z. acredita que as coisas são construídas, não dadas. E que há chances de reconstrução, desde que haja vontade e os procedimentos corretos.

Mas poucos aceitam a proposta e as pessoas seguem sofrendo, enquanto a Sra. Z. suspira no canto da sala.

domingo, 1 abril at 3:12 pm 1 comentário

As noites da Sra. Z.

A Sra. Z. abre os olhos em meio à fumaça. Por baixo das luvas, não há linhas em suas palmas. Homens e mulheres buscam a completude ao seu redor.

O bar, repleto de pessoas vazias, não mudara ao longo dos anos em que a Sra. Z. esteve ali, noite após noite. Homens e mulheres sempre buscarão preencher o vazio de suas almas com o calor de seus corpos.

Porque corpos e almas são uma coisa só, sabe a Sra. Z. A dança, a palavra, a sede e a luxúria são expressões do único desejo que existe. E desse desejo nasce tudo o que há nesse mundo.

“Na galeria cada clarão é como um dia depois de outro dia”, canta o Sr. B. ao fundo. A Sra. Z, ao ouvir, sorri e se aninha nas palavras que são abraço. O Sr. B. é companhia constante nas noites em que a Sra. Z. sente saudade do que nunca viveu.

Envolto nos desejos alheios, o seu desejo acaba engolido. A Sra. Z. sente-se frágil. Cansada de ser riso sempre, nunca pranto, ela veste a fantasia e vai para o palco. Ela tem consciência de que o amor não tem pressa e pode esperar.

domingo, 11 março at 12:29 am 2 comentários


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