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Papo Psi: Violência doméstica. Até quando vai ser natural?

Cena 1 (vizinhas conversando):

– Aquela ali apanha do marido.
– Mas também bate. Você viu que eles estavam os dois roxos ontem?
– Pois é a vida: tem quem goste assim
.

Cena 2 (pai falando com o professor):

– Quando eu chegar em casa, a varinha vai comer.
– Mas adianta?
– Sempre adiantou. Semana passada ele apanhou, semana retrasada também. Só apanhando ele aprende.

Cena 3 (aluno em sala de aula):

– Mas sabe o que é, professora? Tem mulher que gosta de apanhar. A minha vizinha, por exemplo, se não apanha, não deixa o marido dormir. Eu que não vou me meter.

Das três cenas aí de cima, pelo menos uma eu presenciei nos últimos seis meses. As outras duas é bem possível que você tenha presenciado. E me assusta perceber o quanto a gente considera “normal” a violência que acontece dentro de casa.

Violência doméstica não é só dar tiro na mulher porque ela demorou no mercado. Violência doméstica também é a mulher destratar o marido quando ele chega em casa. Aliás, violência não precisa ser física, pode ser psicológica. O filme espanhol Te doy mis ojos (trailler), de 2003, é uma ilustração bastante fiel do quanto a violência doméstica extrapola o limite da agressão física: uma pessoa cotidianamente agredida não consegue estabelecer vínculos afetivos. É uma pessoa que está condenada a não confiar: não confiar nos pais, não confiar no parceiro, não confiar no chefe, não confiar nos amigos. Se eu aprendo que a cada falha eu vou apanhar, que a cada mudança climática (ou derrota do time) eu vou tomar uns tapas, como eu vou estabelecer uma relação afetiva e não violenta com qualquer pessoa?

Para compreender o fenômeno é importante mudar o foco. Sair do agredido e partir para o agressor. O que leva uma pessoa a se tornar um agressor? Agressores são formados com modelos de agressão. Crianças que crescem presenciando os pais se agredindo provavelmente acharão “normal” que um exerça esse poder violento sobre o outro: porque é mais forte, ganha mais ou é o responsável pela casa. Enquanto filhas de mulheres agredidas tenderão a naturalizar o “apanhar”, filhos de pais agressores tenderão para o “bater”. A aprendizagem se dá pelo modelo.

Já passou da hora de repensarmos (e tentarmos eliminar) as reações violentas que ocorrem dentro das nossas casas. Repensar nossas respostas às adversidades, nossa visão de mundo: será natural que “quem pode mais, bate e quem pode menos, apanha”? São esses os lugares que queremos ocupar em nossa relação com o mundo? Quais as conseqüências disso para a sociedade?

Estabelecer um novo repertório de comportamentos, não violentos e baseados no afeto, na racionalidade e no respeito ao outro é trabalho para gerações. Mas isso não é justificativa para não darmos o primeiro passo.

Quer saber mais?

sábado, 23 fevereiro at 10:32 pm 3 comentários

Papo Psi: “(…) mas se o drogado fosse meu filho (…)”

Contexto:
(1) Para quem não sabe, eu pesquiso fatores de risco em adolescentes para uso de substâncias psicoativas. Desde fevereiro é isso que norteia pelo menos metade das minhas leituras, dos meus escritos, da minha participação em fóruns, congressos e seminários. Isso faz de mim uma chata que tem cinco pares de antenas permanentemente ligadas quando o assunto é uso de substância (de cigarro e álcool a ketamina). Apesar de saber que ainda tenho muita coisa para aprender, já sei umas poucas coisas que me fazem posicionar de uma forma um pouco mais incisiva quando o assunto é esse.

(2) Como estudante da área de Saúde (na Psicologia isso é meio nebuloso, mas vamos deixar assim aqui), eu espero um comportamento de Profissionais da Área de Saúde dos outros estudantes dessa área. O que é isso? Resumindo, falo em comprometimento ético, estudo, leitura, atenção triplicada aos próprios discursos e preconceitos. Entrou na faculdade, você já é profissional. Se comporte como tal.

Os fatos:
Lá estava eu, devolvendo uma pilha de livros para retirar outra na biblioteca. Até que chega aos meus ouvidos: “Mas se o DROGADO fosse meu filho(…)”; “Porque o DROGADO (…)”. Aquele DROGADO ecoou no meu cérebro. Vindo de um grupinho vestido de branco, doeu ainda mais. Se antes de começar a estudar Transtornos Relacionados ao Uso de Substância eu já tinha uma birra danada das palavras DROGADO e MACONHEIRO, agora a coisa piorou. A birra agora é contextualizada, marcada, cientificamente fundamentada.

Alguns estudos já recomendam que não se use mais o termo “Droga” para se referir a substâncias psicoativas. Primeiro porque o termo “droga” no senso comum não abarca o álcool e o cigarro (que são substâncias psicoativas com tantos danos – individuais e sociais – quanto as outras, sendo as primeiras substâncias causadoras de dependências no mundo, segundo a OMS). Segundo, porque “droga” tem uma conotação de coisa ruim e é um termo altamente preconceituoso, impedindo o diálogo já no começo.

Calma aí, Carla, você está dizendo que drogas são boas? Claro que não, padawan. Mas se você trabalha com um obeso, vai dizer para ele parar de ser guloso? Se você trabalha com um sedentário, vai dizer para ele largar mão de ser preguiçoso? É a mesma coisa com usuários/dependentes de substância: no momento em que você coloca nele a “culpa” pelo problema, acabou a empatia, acabou o diálogo.

Discursos revelam preconceitos. E para se trabalhar com questões como o abuso de substâncias não se pode ter preconceito. Para se trabalhar com adolescentes, então, menos ainda. Adolescentes são contestadores por natureza e precisam de um espaço de escuta. A política do “cala a boca que eu sei” não funciona com eles.

Nem todo adolescente que experimentar substância, se tornará dependente químico. Nem toda pessoa que faz uso de substância é dependente químico. A evolução de um quadro de uso experimental para um quadro de dependência está ligada a uma série de fatores, que vão de marcadores genéticos e existência de outros transtornos mentais (transtornos de ansiedade e depressão, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, esquizofrenia, para citar alguns) a fatores ambientais (adolescentes que não tem contato com álcool dificilmente se tornarão alcoolistas, por exemplo). A priori, não há como saber quem se tornará dependente e quem se manterá nos quadros de uso experimental ou recreativo: é uma loteria perversa. Talvez seja essa a maior razão para a preocupação de quem está perto desses adolescentes – pais, professores, profissionais da área de saúde – em relação a fatores de risco e proteção, elaboração de políticas públicas de prevenção, distribuição e propaganda (especialmente no caso do álcool e do cigarro) e de ações preventivas ou de intervenção onde o uso já está instalado.

Como disse a Dra. Analice Gigliotti na abertura do último Congresso da ABEAD, precisamos cuidar dos nossos jovens. E isso se faz com conhecimento, respeito e atenção. Jamais com preconceito.

Para saber um pouco mais:

quarta-feira, 26 setembro at 7:38 pm 8 comentários

Papo Psi: Tio Erikson sabia das coisas (Parte II de II)

Lembram do que a gente conversou semana passada? Da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial? Pois é, vamos às últimas (e piores) crises agora.

Eu considero esses estágios mais críticos porque são menos dependentes dos outros e mais da pessoa. E porque são os mais sujeitos a “problemas”. Mas isso é uma consideração minha, não da Teoria.

Vamos à quinta crise. Na adolescência, a gente descobre – ou constrói – uma imagem própria. Aquela coisa “eu sou a nerd” (olha eu aí!!!), “eu sou a patricinha”, “eu sou a revoltada”. O Erikson chama essa crise de identidade/confusão de identidade. De novo, muita coisa pode influenciar.

Passou? Descobriu quem você é? Então agora é hora da sexta crise. A sexta crise é A crise. Talvez eu esteja rodeada de pessoas iguais, talvez seja zeitgeist (sempre ele), mas a sexta crise me parece a mais mal resolvida nos nossos tempos. O nome dela? Intimidade/Isolamento. Porque você já sabe quem você é e pode muito bem compartilhar isso com outra pessoa. Ou não. (Nunca se sabe.)

Escolheu compartilhar? E agora, o que você vai deixar pro mundo? Chegamos na sétima crise: generatividade/estagnação. O nome é complicado, mas a idéia não. O que você vai deixar pro mundo depois que morrer?  (Pausa para pensar antes de ir para a próxima crise…)

Finalmente,  a última crise. Você passou bem por todas as outras, viveu, amou, fez amigos, deixou frutos. Alguma dúvida se você vai para a integridade ou para o desespero? Pois é.

Tio Erikson sabia das coisas. Pena que a gente prefere achar que do nosso jeito é melhor.

Dreams (The Corrs)

Now here we go again
You say you want your freedom
Well who I am to keep you down?

It’s only right that you should
Play the way you feel it
But listen carefully to the sound
Of your loneliness
Like a heartbeat…drives you mad
In the stillness of remembering what you had
And what you lost
And what you had
And what you lost

Thunder only happens when it’s raining
Players only love you when they’re playing
Say women they will come and they will go
When the rain washes you clean, you’ll know

Now here I go again, I see the crystal visions
I keep my visions to myself
It’s only me
Who wants to wrap around your dreams and
Have you any dreams you’d like to sell?
Dreams of loneliness
Like a heartbeat…drives you mad
In the stillness of remembering what you had
And what you lost

What you had
And what you lost

Thunder only happens when it’s raining
Players only love you when they’re playing
Say women they will come and they will go
When the rain washes you clean, you’ll know

(Alguma semelhança com a sexta crise?)

segunda-feira, 3 setembro at 12:00 pm 2 comentários

Papo Psi: Tio Erikson sabia das coisas (Parte I de II)

Aproveitando o Dia do Psicólogo, eu quero inaugurar uma nova série nesse blog, a Papo Psi. Aqui, vamos falar de assuntos variados, mas sempre sob a ótica de alguma das Psicologias.

Para começar, vamos falar de Psicologia do Desenvolvimento. Mais exatamente, da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial de Erik Erikson.

Nome bonito esse, não? “Teoria do Desenvolvimento Psicossocial”. Mas não se assuste, a coisa é super simples. Para o Tio Erikson (como eu o costumo chamar carinhosamente quando eu deito no colo, aliás, no livro dele) o nosso desenvolvimento é marcado por crises. A forma com que a gente resolve essas crises é que vai determinar a forma que a gente leva a nossa vida.

Ao todo, são oito crises. Nem preciso falar que algumas pessoas não passam por todas porque morrem antes (ah, que trágico). A primeira crise é chamada de crise da confiança/desconfiança. Sabe quando você é bebê e depende de alguém para te alimentar, te levar para cima e para baixo, te limpar, te ninar, te proteger? Pois é, se você tem tudo isso – sortudo! – você vai para o lado da confiança, se você não tem, você já começa com o pé esquerdo, na desconfiança.

Depois, por volta dos dois/três anos, quando você aprende a controlar seus esfíncteres (ou seja: quando você aprende a usar o troninho e larga as fraldas), você vai passar por mais uma crise: autonomia/vergonha. Funciona assim: se a sua mãe for inteligente e não te detonar quando você falhar no controle, você vai pra autonomia. Senão, fica com vergonha e achando que faz tudo errado sempre. Pensa o estrago: primeiro mamãe não cuida e depois mamãe detona. Que tal?

A próxima crise, iniciativa/culpa, é quando você começa a brincar com os amiguinhos da sua idade. Então você aprende o que é certo e começa a fazer o que é certo. Ou não. (Adivinhe o que acontece então? Muito bem, padawan! Culpa no coitado do garoto.)

Finalmente, chega ela: a idade escolar. Quando você começa a escrever, se sente produtivo. Ou então se sente inferior aos amiguinhos (porque eles já escrevem, porque eles já fazem contas, porque eles já… e você não.) Realização/inferioridade é o nome dessa crise. E olha, vai marcar a vida da pessoinha muito muito muito.

E agora? O que acontecerá com nosso pequeno herói? Essa história linda continua na próxima semana. Muitas emoções vêm por aí, não perca!

segunda-feira, 27 agosto at 12:00 pm Deixe um comentário


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