Posts filed under ‘Paixão segundo CR’

O dia em que eu fui Virgem Maria

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava, e disse: ‘Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com você!’ Ouvindo isso, Maria ficou preocupada, e perguntava a si mesma o que a saudação queria dizer. O anjo disse: ‘Não tenha medo, Maria, porque você encontrou graça diante de Deus. Eis que você vai ficar grávida, terá um filho e dará a ele o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor dará a Ele o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó. E o seu Reino não terá fim’. (Lc 1,26-33)

Na paróquia que eu participava quando pequena, o fim do ano era sempre igual. Depois do encerramento da catequese (por volta da segunda quinzena de novembro), começavam os encontros de preparação para o Natal. Os grupos eram formados pelas famílias que recebiam a mesma capelinha – cada duas quadras tinham a sua capelinha e a sua zeladora – e os encontros de preparação seguiam o mesmo roteiro: oração – fato da vida – leitura da Palavra – oração – gesto concreto – oração. É fácil imaginar que esse roteiro não era muito atrativo para crianças, mas a minha quadra contava com a Dona Eleonor, uma senhora pia, extremamente devota e com veia artística: ela era a nossa coordenadora, responsável pelo Presépio Vivo do grupo.

O presépio vivo era a alegria das crianças. Só poderia participar (como anjo, pastor, José ou Maria) quem frequentasse as reuniões. Era um bom argumento e as reuniões sempre se encerravam com um lanchinho e o ensaio.

A minha vez de ser Virgem Maria chegou quando eu tinha 13 anos. E foi especial, demais, porque o Menino Jesus era um bebê de verdade. A “peça” não exigia grandes talentos teatrais, eram só dois atos: a chegada em Belém com José e o burrico (o burrico também era personagem, esqueci de falar antes) e a adoração dos pastores e dos Reis Magos. Mas ensaiávamos muito, nada poderia dar errado (eu não poderia deixar o bebê – de verdade – cair, por exemplo).

Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade Natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a cidade de Davi, chamada Belém na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa. (Lc 2,1-7)

O dia chegou: em uma garagem da vizinhança montamos o cenário – janelas onde os donos de hospedarias recusariam pouso à Sagrada Família, a gruta, a manjedoura. Eu e meu irmão seríamos Maria e José, outras garotas foram donas de hospedaria e os outros garotos foram anjos, pastores, reis ou burricos. De nós dependia a história do Natal, nós estávamos fazendo o Verbo existir entre nós.

É desse tempo que vem as minhas lágrimas ao ler, ouvir ou ler coisas de Natal. Foi com a D. Eleonor (e seu presépio perpétuo, guardado na estante que se abria no Natal, com direito a jacarés e carros de polícia) que eu aprendi o que é Natal: um homem e uma mulher carregando a Graça, vendo as portas se fecharem ao seu pedido de pouso. Mas nem as portas fechadas fazem com que Deus desista de nós: a cada ano somos chamados a lembrar daquele que, enviado por Deus, foi rejeitado e perseguido pelos homens. A cada ano, a chance se renova (o Ano Litúrgico, para os católicos, começa no Advento – a espera pelo Natal). E, uma semana após o milagre, Deus nos dá um ano inteirinho, em branco, à espera da nossa escrita.

Que 2007 se encerre em grande estilo. Que 2008 traga amor, saúde, paz e, principalmente, força: para lutar pelo que é certo, concretizar os seus desejos e suportar as vicissitudes da vida. E, apesar de eu não pretender converter ninguém, uma coisa é certa: é muito mais fácil ser forte quando Deus está do nosso lado. Assim, que em 2008 você fique com Deus. E que Ele abençoe os seus caminhos e os caminhos daqueles que você ama.

p.s.: Algumas pessoas já receberam essa mensagem por e-mail. Como no ano passado, achei por bem colocar aqui a mensagem para que todos recebam os meus votos de Natal e Ano Novo. Se você não recebeu o e-mail e deveria, mil perdões. Organizar meus contatos é uma das minhas resoluções de Ano Novo. =)

segunda-feira, 24 dezembro at 11:59 pm 1 comentário

A Paixão segundo CR: A música

Conta a lenda que quando eu era bebê e resolvia fazer pirraça, minha mãe me colocava para ouvir música. A música é talvez o laço mais grudento que eu tenho com meu pai: Beatles, RobCar, Altamiro Carrilho, Burt Bacharach, Dione Warnick, Stevie Wonder, Bee Gees, Chico Buarque. Foram muitas as noites que passamos juntos da vitrola (eu adoro as vitrolas), foram muitas as vezes que eu ouvi sozinha para me acalmar.

Talvez porque me ensinaram, eu me acalmo com música. Desde sempre tem sido assim. O curioso é o ir-e-vir dos estilos: há momentos eletrônicos, momentos acústicos, momentos dos amigos, momentos dos amores, momentos de Bach, momentos de Beatles. E de repente, tudo muda. E eu passo a um novo momento.

Ouvir música, para mim, é conhecer pedaços do mundo. Clichê dos clichês: viajar sem sair do lugar. Junto com a literatura, a forma de arte mais constante na minha vida.

p.s.: Esse texto não deixa de ser uma tentativa de explicação da “musicalização” que esse blog tem sofrido nos últimos tempos. Voltaremos à nossa programação normal assim que definirmos – de forma estatística – o que é a nossa programação normal.

quinta-feira, 30 agosto at 12:00 pm 1 comentário

A Paixão segundo CR: A Páscoa

Eu gosto mais de Páscoa que de Natal. Eu gosto mais de Páscoa que de Ano Novo. Eu gosto mais de Páscoa que de aniversário. E isso não tem nada a ver com chocolate, presentes ou feriado.

Páscoa é renascimento. É passagem. É renovação. É a hora de perceber que, por piores que as coisas estejam até então, há como sair do desterro, da escravidão, e chegar à Terra Prometida. É perceber que é possível deixar o túmulo e voltar para perto do Pai. E que, uma vez feita essa viagem, as coisas ficarão bem melhores do que elas são.

Aproveitem a Páscoa: renovem seus corações, suas almas, seus desejos e suas mágoas. Deixem a morte de lado, vejam a vida que nos espera, independente de sua religião, de sua crença, de sua fé. Faça da Páscoa a oportunidade de renovar a sua vida, de deixar o deserto para trás!

Os católicos, como eu, celebremos a Páscoa da forma que ela deve ser celebrada: comecemos com a instituição da Eucaristia na quinta feira, adoremos o Santíssimo na sexta, relembremos o sacrifício de Cristo e celebremos a ressurreição no sábado. E que nossa vida se torne um eterno Aleluia!

quinta-feira, 5 abril at 12:00 pm 2 comentários

A Paixão segundo CR: São Paulo

Falar mal da vida nas grandes metrópoles, especialmente de São Paulo e do Rio, é o maior clichê dos últimos tempos. Canso de ouvir frases do tipo “a qualidade de vida no interior é muito melhor”, “Ninguém merece essa cidade”, “São Paulo não tem mais jeito”. Aí eu pergunto: jeito para quê, cara pálida? Não é, no mínimo, curioso que vinte milhões de pessoas vivam num lugar tão ruim quanto pintam por aí?

Nunca morei em São Paulo, apesar de passar lá boa parte da minha vida e ter nos seus cantinhos grande parte das minhas referências culturais, sociais e de personalidade. Não sei se viveria lá – confesso que tenho um medo danado daquele monte de prédio, monte de gente, monte de carros – nem posso falar sob a perspectiva de quem enfrenta o boitatá todos os dias (deixo isso para o Doni, que o faz tão bem).

Falo da minha perspectiva, a de quem adora andar no Centro Velho, pegar o metrô e chegar à Paulista em 15 minutos para tomar um café e comprar uns livros na Cultura. Da perspectiva de quem sente uma falta danada das exposições do MASP e da Pinacoteca. De quem vai à feira todas as quintas mas sabe que o melhor pastel é o de lá. De quem sonha com o Mercado Municipal e com seus doces portugueses, árabes, japoneses, suas frutas e condimentos. De quem compra filme na Conselheiro e depois fica economizando para durar até a próxima viagem. De quem vai à Galeria do Rock só para olhar as vitrines. De quem tem grandes amigos na selva de pedra, uma amizade sem preguiça de atravessar a cidade. De quem morre de saudades da pizza do Marco Luccio, da esfiha do Garabed, do café do Cafeera, das eclairs de chocolate da Ofner, do sanduíche de pernil do Estadão. De quem lê a Ilustrada e fica sonhando com os concertos, as peças, os shows, os restaurantes e os botecos.

Há problemas em São Paulo, como há em qualquer lugar. Boa parte deles, é verdade, é fruto de falta de planejamento urbano e falta de manejo ambiental. Isso sem contar na falta de noção do povo, que ainda insiste em jogar lixo na rua, não pressiona as autoridades por um manejo decente do lixo, das águas pluviais, que lava as mãos e deixa para reclamar quando acontece algum desastre. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa boa, que não consigo entender como podem falar tanto do que é ruim e esquecer o que é bom. Fica o conselho: Se você não conhece São Paulo, vá. Fique uma semana e conheça o melhor e o pior do Brasil. Você vai se supreender.

Mercado Municipal

sábado, 17 março at 8:37 pm 7 comentários

A Paixão segundo CR: Observar o Pôr do Sol

“Olhe o céu, Carla. Ele nunca mais se repetirá.”

Talvez essa seja a frase que eu mais ouvia quando pequena. Uma das pequenas loucuras de minha mãe é gostar de olhar o céu. Seja de dia – para ver as nuvens, seja de noite – para olhar as estrelas e a lua. Mas o verdadeiro espetáculo está na transição, quando o sol nasce ou quando ele vai embora.

“Você já imaginou / por que a lua foi embora? É que o sol pede para nascer / para que tudo possa crescer!”

Ok. Confesso que ver o sol nascendo não é minha especialidade, a não ser que eu tenha virado a noite. Mas o pôr do sol, talvez por ser rápido, sempre me fez sentir meio “sorteada”. E nunca, nunca eu vi um pôr do sol que não me fizesse – pelo menos – pensar um pouco.

Hoje ao procurar assunto para um post (há dias em que minha cabeça simplesmente não funciona) fui até a janela e fiquei olhando o sol se despedir. E vi aquela confusão de nuvens de chuva, nuvens leves, reflexos de todos os lados. Há como não se maravilhar ali?

Sim, esse é um post-pescoço. Talvez porque hoje seja um dia pescoço. Mas faz muito bem à gente virar um pouco o pescoço e apreciar o que o sol pode fazer simplesmente  por irradiar. Traz paz.

O que você faz para ter paz?

segunda-feira, 26 fevereiro at 11:32 pm 6 comentários

A paixão segundo CR: Comunicação

Reza a lenda que nascera um bebê magrinho. Alguns pensaram que não vingaria, aquela coisinha pífia. Outros se penalizavam. Todos cuidavam bem dele. Era fácil: o bebê não dava trabalho. Chorava pouco, comia bem. E, talvez pelo desejo de mostrar àquele bebê quem ele era, falavam com ele. O tempo todo. Cantavam. Sorriam. Levavam ao sol e à sombra, ao parque, ao supermercado. Falando, sempre.

Ora, o que acontece com um bebê que vive a ouvir pessoas falando consigo? Cresce falando – consigo e com os outros. Do “angu” aos quatro meses até as histórias loucas aos três anos, o bebê se tornaria um contador de histórias.

Mas histórias não são contadas apenas oralmente. Um dia o bebê – já um filhote – percebeu que algumas histórias vinham gravadas em blocos, com símbolos esquisitos. Alguns desses símbolos faziam sentido: “Mamãe, Coca Cola!” Outros, eram totalmente estranhos. Mas havia um lugar mágico onde esses símbolos passariam a fazer sentido. E lá foi o filhote – lindo, de saia vermelha e lacinho na cabeça – para o lugar mágico, em busca do significado dos símbolos esquisitos.

Ainda levaria dois anos até que o filhote compreendesse alguns daqueles símbolos. Alguns, sim. Outros, ainda hoje ela busca compreender.

O fato é que esse filhote cresceu e se apaixonou pela comunicação. Esse fenômeno doido que leva uma mensagem do emissor ao receptor – às vezes alterando todo o seu sentido. E descobriu que comunicar-se é das coisas mais apaixonantes. Junto com aprender, comer, dançar, fazer amigos – coisas que, no fim, são formas de comunicar.

Conto agora a história das paixões dessa pessoa – que já foi um bebê, um filhote e agora é adulta. Mas aos poucos. Saber e sabor são palavras irmãs e merecem muita atenção para se aproveitar cada pedaço.

quinta-feira, 8 fevereiro at 12:55 pm Deixe um comentário


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