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Calligaris, hoje

[…] Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. […]

A coluna completa, na Folha de São Paulo, hoje. Ou no Orkut.

quinta-feira, 24 abril at 11:45 am 5 comentários

Papo Psi: Violência doméstica. Até quando vai ser natural?

Cena 1 (vizinhas conversando):

– Aquela ali apanha do marido.
– Mas também bate. Você viu que eles estavam os dois roxos ontem?
– Pois é a vida: tem quem goste assim
.

Cena 2 (pai falando com o professor):

– Quando eu chegar em casa, a varinha vai comer.
– Mas adianta?
– Sempre adiantou. Semana passada ele apanhou, semana retrasada também. Só apanhando ele aprende.

Cena 3 (aluno em sala de aula):

– Mas sabe o que é, professora? Tem mulher que gosta de apanhar. A minha vizinha, por exemplo, se não apanha, não deixa o marido dormir. Eu que não vou me meter.

Das três cenas aí de cima, pelo menos uma eu presenciei nos últimos seis meses. As outras duas é bem possível que você tenha presenciado. E me assusta perceber o quanto a gente considera “normal” a violência que acontece dentro de casa.

Violência doméstica não é só dar tiro na mulher porque ela demorou no mercado. Violência doméstica também é a mulher destratar o marido quando ele chega em casa. Aliás, violência não precisa ser física, pode ser psicológica. O filme espanhol Te doy mis ojos (trailler), de 2003, é uma ilustração bastante fiel do quanto a violência doméstica extrapola o limite da agressão física: uma pessoa cotidianamente agredida não consegue estabelecer vínculos afetivos. É uma pessoa que está condenada a não confiar: não confiar nos pais, não confiar no parceiro, não confiar no chefe, não confiar nos amigos. Se eu aprendo que a cada falha eu vou apanhar, que a cada mudança climática (ou derrota do time) eu vou tomar uns tapas, como eu vou estabelecer uma relação afetiva e não violenta com qualquer pessoa?

Para compreender o fenômeno é importante mudar o foco. Sair do agredido e partir para o agressor. O que leva uma pessoa a se tornar um agressor? Agressores são formados com modelos de agressão. Crianças que crescem presenciando os pais se agredindo provavelmente acharão “normal” que um exerça esse poder violento sobre o outro: porque é mais forte, ganha mais ou é o responsável pela casa. Enquanto filhas de mulheres agredidas tenderão a naturalizar o “apanhar”, filhos de pais agressores tenderão para o “bater”. A aprendizagem se dá pelo modelo.

Já passou da hora de repensarmos (e tentarmos eliminar) as reações violentas que ocorrem dentro das nossas casas. Repensar nossas respostas às adversidades, nossa visão de mundo: será natural que “quem pode mais, bate e quem pode menos, apanha”? São esses os lugares que queremos ocupar em nossa relação com o mundo? Quais as conseqüências disso para a sociedade?

Estabelecer um novo repertório de comportamentos, não violentos e baseados no afeto, na racionalidade e no respeito ao outro é trabalho para gerações. Mas isso não é justificativa para não darmos o primeiro passo.

Quer saber mais?

sábado, 23 fevereiro at 10:32 pm 3 comentários

O dia em que eu fui salva por David Bowie

[Mais uma música que marcou a minha vida.]


[aperta o Play, cara-pálida!]

Era um daqueles dias chatíssimos, em que você quer ficar só e está rodeado de gente. Datas especiais, aquelas que eu odeio. Eu deveria determinar as datas especiais para mim, não a Associação Comercial de São Paulo. Mas o amor mais puro me chamava e não me restava opção além de me encapotar e encarar o tempo.

Quem conhece aquele lugar sabe o frio que faz lá. Mesmo no verão, com sol a pino e sensação térmica de quarenta graus, aquele é um dos mais gelados que eu conheço. Muito tempo ali dentro te gela os ossos. Isso sem falar nos robôs invisíveis que sugam a alma dos incautos que arriscam dar bobeira por lá.

Sem sol, a sensação térmica era de oito graus. Eu tinha duas opções: dar um jeito na minha vida, de uma vez, ou perder minha alma para os tais robôs invisíveis. A primeira pareceu mais razoável e lá fui eu: encapotada, de bota, cachecol, casaco, luva e medalha de São Bento para proteger a alma.

Saindo de casa me lembrei do porta cds. Já que eu tinha que sair de casa, entregar aqueles papéis e dar um jeito na minha vida, que pelo menos eu cantasse e dançasse um pouco no caminho. Peguei o primeiro cd que eu vi (os robôs já estavam aqui em casa, roubando a minha alma: era preciso correr) e entrei no carro.

No caminho, enquanto o cd tocava, eu fui pensando na minha situação: como disfarçar a dor incapacitante que eu sentia e me empoderar, enquanto meu coração estava quebrado ao meio e todo o desejo se esvaía em outro lado? Eu estava ferida. E doía.

Foi quando começou. Sem ninguém pedir, ele começou a falar aquelas coisas. Falou de um poder efêmero, mas que não é menor por isso. Um poder vindo da fonte mais explosiva e incontrolável e pura.

Chegando no meu destino, enxuguei as lágrimas (só eu sei quantas cairam no estofamento do carro naquela semana) e me recompus. No melhor estilo “eu sei-eu quero-eu posso-eu tenho” entrei no recinto e falei o que estava guardado. Com uma força que a ciência contemporânea não explica, consegui dizer o que queria. A resposta foi a que eu esperava, embora não fosse a que eu queria. De qualquer forma, havia uma resposta e isso bastava. Levantei e fui embora, para nunca mais voltar.

Desse dia em diante, quando a coisa aperta eu ouço Heroes. E, num instante, acredito que é possível, mesmo com as balas passando sobre a minha cabeça e o mundo todo indo contra o que eu quero. Que eu posso, simplesmente porque eu quero. Foi ele quem me ensinou. E por isso eu digo que, mais que marcar, ele salvou a minha vida.

domingo, 3 fevereiro at 4:20 am 4 comentários

Clichê estereotípico: trilha sonora para um dia cinza

Qualquer beijo de novela me faz chorar.

[Chega, por hoje.]

segunda-feira, 8 outubro at 2:11 pm 4 comentários

Então te joga!

– Será que vale a pena eu ir sozinha?
– Ah, super vale.
– Mas e se der alguma coisa errada? Sei lá, se o cara não for com a minha cara? Se detonarem o trabalho?
– É, você corre esse risco.
– E agora, que que eu faço?
– Que você quer que eu te fale?
– Sei lá, me ajuda.
– Te joga, já disse.
– Mas…

******************

A vida não espera a gente decidir. Cada decisão que a gente não toma é uma decisão que a gente deixa pra vida tomar pela gente. E aí não tem como reclamar depois.

Eu nem preciso dizer aqui que se jogar não garante nada, ou preciso? Não há garantias de que as coisas vão dar super certo só porque você tentou, ou de que no fim o caminho que você escolheu vai se revelar o melhor. Não tem como, beibe. A vida é imprevisível, você não é o único umbigo dotado de pernas e cérebro que habita esse planeta, não tem como mandar na vontade alheia. Isso é motivo pra deixar de tentar? Não, não mesmo.

Uma propaganda que eu gosto muito é aquela que fala “esse seria o seu escritório se você não tivesse abandonado o projeto”, “esse seria seu filho se você não tivesse ficado dormindo”… Dormir é bom, mas só o tempo necessário (que pode ser 6, 7, 8, 9 ou 10 horas por dia). Enquanto você tá acordado, te joga. Coloca toda a tua energia em cada minuto do teu dia. Não garante que vai dar tudo certo, mas se você não fizer isso a chance de não dar nada certo é bem maior.

Você consegue, vai por mim. Eu também consigo. Amanhã, por exemplo, será um dia estupendo. Es-tu-pen-do. Isso se o Nicastri não vir me dizer que ele não escreveu nada do que eu entendi, lógico. Mas eu li direitinho, ele não vai dizer isso! 😉

Mas chega de falar, fique com a musa. Porque ela sabe o que diz, na maior parte do tempo.

p.s.: Como eu gritaria num xô de róque, libera o Mosh!

p.p.s.: Agora eu viro gente, ou não. Torçam para que tudo dê certo amanhã.

quarta-feira, 5 setembro at 12:00 pm 4 comentários

50 músicas que marcaram a minha vida: Heal the Pain (George Michael)

Heal the Pain foi tema alguma novela lá no começo dos anos 90, quando eu estava começando a estudar inglês. Deve ter sido a terceira música que eu aprendi no curso (a primeira foi It Must Have Been Love, a segunda, Stay).

Agora me pego pensando na percepção de dor que eu tinha aos onze, doze anos. “Nobody else has the power to make you happy” foi repetida inúmeras vezes, na hora do beijo que eu não dei, na hora de trancar-se junto com o toca-fitas no banheiro, na hora de chorar com a vassoura na mão. Eu esperava a hora que chegaria alguém dizendo que poderia curar a minha dor.

Sim, eu ouvia em fita. Eu gravei do LP da irmã de uma amiga querida. E enfeitei toda a caixinha com adesivos canadenses, da Sandlion. Alguém lembra dos adesivos da Sandlion? Eram caríssimos, especialíssimos, minhas maiores preciosidades. Mas nessa fita, que só tinha Heal the Pain (60 minutos, quantas vezes em uma hora cabe Heal the Pain?) eu coloquei vários adesivos da Sandlion. Leõzinhos, carinhas, flores, árvores.

Bem depois eu procurei Heal the Pain no Napster, mas não achei. Acabei esquecendo dela. Até que dias atrás eu ganhei a mp3, com o Paul McCartney cantando junto como George Michael.

Engraçado porque – do nada – a música ressurge num momento de dor. E – de novo – traz esperança.

(Vou procurar meus adesivinhos.)

sábado, 1 setembro at 12:00 pm 4 comentários

Da vida e das suas vicissitudes

Todos os dias morre alguém, eu sei. Mas mortes vem acontecendo de um jeito muito frequente por aqui, sabe? Em menos de dez dias foram três pessoas próximas: uma viagem já era esperada há algum tempo – uma das passagens mais dignas que eu já vi, diga-se de passagem, uma inesperada e assustadora (só fiquei sabendo agora) e ainda outra traumática, violenta, deixando todo mundo meio bobo, sem entender nada.

Aí eu me pego pensando no tal “fato humano” de que o Enio falou esses dias. Quantas vezes a gente fica igual formiga, catando migalhas aqui e ali. Correndo pro formigueiro não deixar de funcionar a contento.

A contento de quem? A contento de quê?

Hoje conversava com uma amiga: ela não se conforma por não entender o “critério”. Eu prefiro me apegar na história de que ninguém sabe a hora que o ladrão chega e que a gente tem que estar sempre vigilante.

Sempre, sempre, vigilante.

Vigiar é estar pronto para ir, a hora que for. Você quer ir chateado com alguém? Com alguém chateado contigo? Deixando trabalho pela metade? Sabendo que perdeu os últimos dias da sua vida jogando bubble shooter (sim, eu sou viciada em bubble shooter)?

O que você produz para o mundo? O que você vai deixar aqui depois que for, além de toneladas de lixo e litros de água poluída? E eu não estou falando de produção material, de produção econômica. Produção de carinho, de paz, de harmonia conta muito mais que isso no final.

Da minha parte, eu procuro (e nem sempre consigo, porque eu sou gente fraca e pequena – por isso que eu tento olhar para quem pode me dar exemplo, seja Bento, Francisco ou a minha amiga que foi embora hoje) me lembrar sempre do que é importante. Como bem disse a Rosana (citada pelo Enio, de novo) a gente sabe qual é o nosso fim. O que vem depois, ninguém sabe. Eu creio que seja algo bom, mas isso é fé. E o algo bom que vem depois está intimamente ligado ao que eu faço agora. Ao que nós fazemos agora.

As vezes eu me esqueço disso. Mas é impossível ignorar quando tem tanta gente próxima partindo…

terça-feira, 28 agosto at 8:53 pm 2 comentários

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