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O Sorvete

Boa de garfo que sou, me encantei desde que o vi falando de restaurantes pela primeira vez. A forma de descrever aquele bistrô, aquele mexicano ou mesmo aquela casa de espetos me deixaram fascinada: se ainda não havia nascido tudo o que sentimos hoje, pelo menos uma grande admiração e uma considerável vontade de tê-lo por perto nasceram. Afinal, no mínimo ele seria boa companhia para momentos agradáveis em torno de uma mesa. E as afinidades iam além da mesa: aquele olhar era demasiadamente confortável.

Eu não sei dizer se o interesse dele despertou por aí. Apenas sei que ele ficava feliz de poder comer sem preocupações com calorias, gorduras ou açúcares. E foi assim, de prato em prato, de restaurante em restaurante que nos tornamos próximos. Do começo em uma (lamentável) casa de espetos até o último jantar, com costelinhas ao vinho tinto – de comer com as mãos e lamber os dedos no final – não consigo enumerar os momentos felizes que já passamos ao redor de uma mesa nessa nossa vida.

E se foram poucas, nossas refeições sempre foram significativas. As sopas, por exemplo. Ao evocar a saudade que sentia de minha mãe, ele não titubeou e me levou para uma orgia gastronômica. Confesso que me senti envergonhada e receosa, tantos foram os pratos de sopa e pedaços de pão doce e xícaras de chá – estaria ele pensando que eu sou uma esfomeada? E a noite mexicana, com direito a churros recheados de doce de leite, acompanhados de sorvete e chocolate? Sem contar os efeitos daquele manjericão embebido em vodka e maracujá, acompanhados de uma sugestiva pimenta vermelha. Se, por um lado, nos sentíamos tímidos para falar o que estávamos sentindo, por outro, os olhares e sabores deixavam claro que havia algo ali.

E assim foi: pastel de feira, bife de chorizo, batatas cor de rosa, queijo brie com geléia de damasco. Geléia que ele comprou sem sequer gostar. Queijo que durou o tempo certo para nos garantir os melhores cafés da manhã de nossa vida.

Mas de tudo isso, o que mais me dá saudade é o sorvete de manjericão. Foi por causa do sorvete que eu fui sendo, aos poucos, introduzida no seu mundo. Sua família, seus amigos, todos sabiam do seu empenho para aprender a fazer aquele sorvete, que começou como uma provocação e acabou se tornando a nossa primeira tradição. A primeira de muitas que ainda surgirão nessa vida.

Na cozinha

quinta-feira, 27 março at 12:00 am 5 comentários


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