Posts filed under ‘Brasil’

Calligaris, hoje

[…] Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. […]

A coluna completa, na Folha de São Paulo, hoje. Ou no Orkut.

quinta-feira, 24 abril at 11:45 am 5 comentários

Apenas mais um post

Eu não ia pegar o hype: eu não tinha conhecidos lá, não moro lá, não ando de avião. Minha cidade mal tem um aeroporto – que anda mais fechado que aberto, por causa do vento, por causa da chuva. Além disso, não foi pra falar de desgraça que eu abri esse blog.

Mas não dá. Ontem, quando eu ouvi a música do plantão da Globo, me deu um gelo. A música do plantão deve gelar qualquer mortal desse país. Mas pensei que fosse alguma coisa relacionada ao Pan, nem fui olhar.

Quando liguei a TV, senti quinze tipos de medo. Tenho amigos que vivem na ponte SP – POA. Na hora, todos vieram na minha cabeça. Eu não sabia se ligava, se mandava e-mail, se procurava no MSN. Não achei que seria bacana receber uma ligação do tipo “oi, eu só queria saber se você está vivo”. Não liguei, sabendo que notícias ruins chegam sem a gente ir atrás delas, rapidinho. Hoje de manhã tive notícias de todos ele – graças a Deus não estavam no vôo.

Mas e aí? E os 176 (é isso mesmo?) passageiros que estavam no vôo JJ3054 da TAM? E as pessoas que estavam em terra? Eles são menos importantes porque eu não os conheço?

Não. Agora, passado o primeiro choque, me dou conta do quanto a morte dessas pessoas de um jeito tão estúpido, tão ridículo, tão previsível, é criminosa. E o quanto esse país tem que tomar jeito.

A começar pela imprensa. A Carol e o Chico tem comentários aparentemente opostos, mas muito semelhantes: será que o acidente vai virar hype? Tem blog usando isso pra pegar paraquedista do google? É só pra isso que vai servir? Para aumentar a popularidade da Perfis de Gente Morta? Ou esses esforços vão ser aglutinados para exigir atitudes drásticas de quem deve tomá-las?

O problema maior é o nosso (des)governo. Federal, estadual, municipal. Cai avião, convoca reunião de emergência. Controlador de vôo entra em greve por falta de condições de trabalho, usa lei marcial pra fazer os infelizes trabalharem mais. Quebra a safra por chuva de pedra ou geada, baixa um pacote de refinaciamento. Crise em hospital, contrata um monte de gente na pressa. Precisa reconhecer curso em universidade pública, compra equipamento sem licitação na pressa. Falta menos de um mês pro Pan e as obras estão atrasadas, mais obras sem licitação e tudo fica bonito na abertura.

Deu pra entender aonde eu quero chegar?

Isso não é papel de governo. Isso é apagar incêndio (com o perdão do trocadilho infeliz).

Se o aeroporto deixou de ser a melhor saída para o Brasil, se aviões se tornaram um meio de transporte perigoso no Brasil, se a coisa chegou nesse ponto é porque tem algo muito errado aí. E há mais de 6 anos. Há mais de 14 anos. Em 63 teve um acidente em Congonhas, na época do Pan de São Paulo. São quarenta e quatro anos. Falta planejamento estratégico nesse país.

“Ah, mas eu pago os meus impostos e voto a cada ano, o que mais eu posso fazer?”

Sei lá. Eu já falei antes e vou repetir: considero esse tipo de participação política insuficiente. Para um país que lutou pela democracia, votar não é privilégio. É obrigação. Tá, tem toda aquela conversa de votos de adolescentes, voto de analfabetos, voto obrigatório. Mas não quero me delongar.

Eu não tenho a solução dos nossos problemas. Mas espero que a gente não esqueça que os problemas são NOSSOS, não de outros. E cobre a solução como for de direito.

Uns outros posts:

quarta-feira, 18 julho at 10:00 pm 4 comentários

Off-topic: Mobilização contra a redução da maioridade penal

Eu poderia escrever cento e duzentos posts aqui dizendo por quê sou contra a redução da maioridade penal. Outros cento e duzentos dizendo por quê sou a favor da descriminalização do aborto. Mas não quero. Não é objeto desse blog criar polêmicas. A propósito, deixo já um aviso: qualquer comentário que crie qualquer tipo de discussão desagradável será sumariamente deletado, aqui e em qualquer outro post. A casa é minha e eu gosto de casa limpa.

Prelúdio feito, vamos ao que interessa. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal aprovou, no último dia 26 de abril, o Substitutivo do artigo 228 da Constituição Federal. O projeto, que reduz a maioridade penal para 16 anos, vai agora para votação no Senado. Se você também acha que esse substitutivo é um movimento puramente eleitoreiro e que há outras formas de reduzir o impacto da criminalidade na nossa sociedade, manifeste-se. O Conselho Federal de Psicologia disponibiliza, na sua página, uma manifestação para ser enviada aos senadores. Não é necessário ser psicólogo para colaborar: basta clicar aqui e colocar seu e-mail.

Obrigada.

quinta-feira, 3 maio at 7:53 pm Deixe um comentário

Eu também sou brasileira

O que significa ser brasileiro? Será gostar de samba, capirinha e feijoada? Estará a brasilidade escondida atrás do trio elétrico? Será que brasileiro é só o índio, o negro, o português que chegaram aqui há mais de 300 anos?

Eu sou descendente de imigrantes: italianos e portugueses que chegaram aqui em fins do século XIX. Também sou provavelmente descendente de indígenas miscigenados, uma herdeira genética dos bandeirantes que abriram o interior de São Paulo. Cresci em uma região colonizada, basicamente, por descendentes de alemães (pomeranos), italianos (do Vêneto), poloneses e ucranianos que vieram do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o que faz com que os sobrenomes tenham mais consoantes que vogais. Há também descendentes de japoneses, que primeiro passaram no norte do Paraná para então se estabelecer aqui.

O lugar onde eu moro é (era) frio, longe de qualquer tipo de praia, não possui uma população negra de tamanho estaticamente significante. Aqui não se samba, se dança o vanerão. Tomamos chimarrão, que, apesar dos olhos azuis das Omas e Nonas que o preparam, é bebida originária dos guaranis da região do Prata. Comemos churrasco, costela assada no braseiro por oito horas, as cucas feitas pelas omas e no inverno – delícia – o brodo com agnoline das nonas. Geléia é schmmier, creme de leite fresco é nata, churrasco é um grande pedaço de carne assado vagarosamente no chão. Nossos trajes típicos são pesados, fruto de um tempo pré-aquecimento global. As prendas andam cobertas do pescoço aos pés, os peões usam botas e bombachas para se proteger do vento gelado do pampa. Há os paulistas, como eu, mas esses vieram depois e acabaram incorporando muito dessa cultura indígena-européia-brasileira que veio do Rio Grande do Sul.

Falamos “bueno”, “bah”, “tu”, “piá” e “guria”. Nosso leite é leitE, não leitI, e quando está quentE nos dói o dentE da frentE. Dizemos que Santa Catarina serve para separar o Rio Grande do Sul do resto do Brasil (piada que serve tanto para gaúchos como não gaúchos).

Somos vistos como a parte “européia” do Brasil, mas deixamos de ser europeus quando nossos avós embarcaram em navios – muitas vezes insalubres – para tentar a sorte na América. Deixamos de ser europeus quando nosso avós se estabeleceram nas colônias e criaram modos de sobreviver aqui. Deixamos de ser europeus – apesar de muitas vezes não abandonar o idioma – quando fugimos de uma terra hostil para abraçar uma terra desconhecida. Não somos europeus em quase nada e qualquer um que conheça a Europa pode confirmar.

Mesmo assim somos alienados da brasilidade que corre por aí. Se você é loiro de olho azul, se o seu sobrenome tem mais consoantes que vogais, você não pode ser brasileiro: é alemão, polaco, gringo. É fato que essa nossa origem nos faz diferente do neto do índio, do neto do negro, do neto do sesmeiro português que chegou aqui em idos de 1500. É fato também que essa diversidade de origens nos possibilitaria ser a maior nação do mundo.

Possibilitaria, se não houvesse essa mania estúpida de separar os brasileiros em brasileiros e imigrantes. Essa mania estúpida de querer que um país gigante como o nosso, tão diverso pela sua natureza, tivesse um povo de uma cara só. Essa mania de achar que a comida do Norte é mais brasileira que a do Sul, ou que as danças do Litoral são mais brasileiras que as do Cerrado. De achar que eu sou mais brasileira que você, porque você come pão com geléia enquanto eu como pão com schmmier.

Grande bobagem. Porque, ouvindo com atenção, o xote de Luiz Gonzaga é muito parecido com o vanerão que toca no CTG todos os fins de semana. Somos todos brasileiros, isso sim, e é nossa diferença que nos fará fortes.

quarta-feira, 2 maio at 12:00 pm 5 comentários

Mais sapo, mais xuxu… (Respondendo)

Essa discussão começou no Enloucrescendo, eu comentei, o Ian me respondeu e eu ia responde-lo lá, mas a resposta ficou muito grande. Não vou prometer que é o último post em que falo de política, porque eu duvido muito. Apesar de saber que são discussões, no fim, não trazem muito resultado.

Vou responder do avesso, tá?

A última parte primeiro, depois a primeira: *Você* não vê o interior como algo atrasado. Faz uma enquete entre seus conhecidos e vê o que sai daí.  Canso de ouvir gente perguntando “mas vc fez a cirurgia (do olho) em Cvl mesmo?”. Aqui TEM vários hospitais – muito bons – por sinal, tem escola, tem faculdade. Mesmo que não tivesse, gente de interior não é menos inteligente que gente de capital, apesar das tentativas numerosas para passar a gente “pra trás”, aquela visão bem jeca mesmo. Mas, enfim, vc é exceção. Em várias coisas. E sabe disso. (E volto pro etnocentrismo, há quem pense que todo mundo que mora em São Paulo é personagem do Sílvio de Abreu e todo mundo que mora no Rio é personagem do Manoel Carlos. Eu sei. Só que falo do que me afeta.)

A primeira parte agora: o xuxu não é grandes coisas e eu também quero ver o Chalita sendo comido por leões. Se bem que ser comido por leões é algo super ultra rápido, preferia uma morte mais lenta. Abutres, quem sabe. (De preferência que o corpo se regenerasse, também.) Aliás, faltariam abutres, se a gente fosse por todo mundo que merece. E acredito que nossas listas sejam bem parecidas.

Agora, não se engane: grande produtor NÃO QUEBRA. Tem lastro, tem reserva pra queimar. Quem tá quebrando é o pequeno, que deve até as cuecas pro BB – e não vem com pacote de meia pataca que não serve pra nada além de postergar a dívida. Produtor de soja é o que menos tá prejudicado. Conversa com  produtor de leite, de frango, de carne ou de suíno – coisa que brasileiro come. O preço que pagam pelo litro de leite, para o produtor, é indecente: menos de cinquenta centavos. Menos que 300 ml de Coca cola. Não cobre o custo. Maioria de pequenos produtores, dependentes de cooperativa ou de agroindústria. Além dos funcionários de agroindústria. O dono da Jacto não perde dinheiro em Pompéia, porque ele demite. O dono da Semeato também. A John Deere, bonitona, muda-se para a Argentina e boa. E a população de Horizontina? Além da Bunge, da Cargill, de várias outras (agro)indústrias. Quem se lasca não é o dono da empresa, ele se muda. Quem se lasca é o cara que só tem aquela opção de emprego. Ou o agricultor médio, que tá se enforcando dia após dia.

Falando em comida de brasileiro, também tem a situação do trigo, importado da Argentina com uma alíquota ridícula por causa do Mercosul, fazendo o trigo nacional ser descartado pelo mercado interno. (Agora deram para importar farinha e quebrar os moinhos também, mais agroindústria, mais gente indo pra rua. Porque nenhum dono de moinho não vai abrir mão das férias num cruzeiro, te garanto.)

É dessa gente que eu tô falando. Não dos grandes. Pode ser que essa gente não coma soja, mas depende dela – e do agronegócio – pra viver. E vão acabar nas filas dos bolsa-família da vida. E aí eu acho que a gente discorda: fazer uma política puramente assistencialista não me parece a melhor forma de contribuir com a população brasileira.

No fim das contas, é tudo a mesma coisa: eles não estão nem aí para a população (aquela que precisa de governo, seja o pequeno agricultor ou o menino da periferia que precisa de uma boa escola pública para ter chance de qualquer coisa na vida). O que eles querem – tanto um quanto o outro – é ficar no poder. E 2010 vêm aí, com Serra e Aécio ou sei lá quem, para fazer o mesmo teatro, defender os próprios interesses e mais gente botando paixão, botando esperança.

Se a questão fosse – realmente – fazer esse país começar a andar, eles se uniriam para criar um pacto social e dar um jeito desse país crescer, como foi feito na Espanha. Coisa que eu não vi acontecer na minha vida. Nem creio que vá ver.

Última coisa, falando em agronegócio (e sobre como o governo federal não prejudica as multis): A Syngenta possui uma fazenda próxima ao Parque Nacional do Iguaçu, dentro da zona de amortecimento (10 km), e estava fazendo testes com soja geneticamente modificada. A Via Campesina invadiu em 14 de março, alegando irregularidade e aquela coisa toda de preservação do meio ambiente (não é bem assim, mas isso é assunto pra outro post). Quatro dias antes da eleição, o Paulo Bernardo esteve aqui fazendo campanha e anunciou uma medida provisória que reduzia para 500m a zona de amortecimento. Essa MP ficou na gaveta até dia 31, foi publicada ONTEM no Diário Oficial. Coincidentemente ou não, ONTEM também foi feito um acordo para que o MST desocupasse a fazenda da Syngenta por meios próprios até quarta feira que vem. A desocupação foi feita hoje. Agora, me diga você, não é um pouco suspeito demais essa MP ser segurada até dois dias depois da eleição para ser publicada? E o acordo com o MST sair no dia da publicação da medida?

Pois é. Por isso que eu não consigo achar que o Lula é melhor que o Alckmin. Nem pior. São iguais. A diferença é que ele prejudica mais o meu setor.

quinta-feira, 2 novembro at 2:38 pm 1 comentário

Um breve comentário

Frank Aguiar

Clodovil

Paulo Maluf

Valdemar Costa Neto

Cascavel eleger só um deputado estadual

Ricardo Berzoini

José Sarney

Fernando Collor de Mello

:::::::::::::::::::::::::::: 

Democracia é representação. Só posso falar isso.

segunda-feira, 2 outubro at 1:42 pm 7 comentários

Sobre as eleições

Alexandre Inagaki participou de forma genial em uma blogagem coletiva sobre Ética (e sobre política) ontem, dia 25 de setembro. Não repetirei o que ele disse, apenas recomendo fortemente que você vá até lá e leia o que ele diz.

Votar nulo não anula eleição. Nulidades sim: acidentes, temporais, incêndios ou qualquer tipo de dano em mais da metade das urnas. Como eu não espero ver a barbárie no domingo, não acredito em eleição anulada. Antes que alguém se anime, lembre-se que  parte dos prédios e todo o aparato usado em eleições (urnas, cabines, cadernos de eleitores) são patrimônio público. Isso significa TODOS somos donos,  apesar de boa parte da população agir como se ninguém o fosse.

A parte da população que tem acesso à Internet tem à sua disposição vários sites para verificar as contas de campanha, o patrimônio declarado e outras informações fundamentais para escolher parte dos funcionários públicos mais bem pagos do país. Omitir-se, escolher “no chute”, é imperdoável. Não venha com churumelas depois. Não sabe onde ir? Experimente o Transparência Brasil, o Políticos do Brasil, o Contas Abertas. O Inagaki indica outros no seu post. Falta de informação não é problema. Informe também as pessoas ao seu redor, discuta a política, fale sobre ela. Elabore o seu posicionamento, aceite críticas e não leve para o lado pessoal: estamos contratando gente para a nossa empresa.

O principal argumento de quem vota nulo é que “faltam bons candidatos”. Ok. Estamos basicamente divididos entre um candidato mitológico e outro que não tem o mínimo de carisma – apesar de ser um bom administrador de crises (isso segundo uma moradora de São Paulo). Temos mais opções quando falamos em senadores e deputados, federais e estaduais. Se eu estivesse aconselhando alguém, indicaria que votasse em alguém próximo. Seja da sua cidade, do seu bairro ou da sua categoria profissional. Deputados distantes são pouco úteis na defesa dos seus interesses.  Guarde o nome, o email e o telefone dos seus deputados, saiba quem são os deputados eleitos pelo seu estado. Não é campeonato brasileiro e importa muito saber quem está lá em cima decidindo coisas por nós.

Nem assim você consegue pensar em alguém? Isso é sinal de que falta participação: na sua associação profissional ou no seu conselho de classe, no condomínio ou na associação de moradores. Sua vida política está negligenciada e eu espero que você não se orgulhe disso. Quem não faz, deixa para os outros fazerem. Quem deixa que os outros façam, não pode reclamar de muita coisa. Preste atenção e você vai ver que as categorias mais priorizadas são as melhor representadas. Lembre-se, o que é público é de todos, não de ninguém.

Quatro dias. Esse é o tempo que você tem para decidir qual é o Brasil dos próximos quatro anos. Quais leis serão aprovadas, quais reformas são primordiais, quais interesses serão priorizados. Pense bem e vote. E torça para que os próximos quatro anos sejam melhores que os últimos.

terça-feira, 26 setembro at 8:46 pm 1 comentário


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