O Sorvete

quinta-feira, 27 março at 12:00 am 5 comentários

Boa de garfo que sou, me encantei desde que o vi falando de restaurantes pela primeira vez. A forma de descrever aquele bistrô, aquele mexicano ou mesmo aquela casa de espetos me deixaram fascinada: se ainda não havia nascido tudo o que sentimos hoje, pelo menos uma grande admiração e uma considerável vontade de tê-lo por perto nasceram. Afinal, no mínimo ele seria boa companhia para momentos agradáveis em torno de uma mesa. E as afinidades iam além da mesa: aquele olhar era demasiadamente confortável.

Eu não sei dizer se o interesse dele despertou por aí. Apenas sei que ele ficava feliz de poder comer sem preocupações com calorias, gorduras ou açúcares. E foi assim, de prato em prato, de restaurante em restaurante que nos tornamos próximos. Do começo em uma (lamentável) casa de espetos até o último jantar, com costelinhas ao vinho tinto – de comer com as mãos e lamber os dedos no final – não consigo enumerar os momentos felizes que já passamos ao redor de uma mesa nessa nossa vida.

E se foram poucas, nossas refeições sempre foram significativas. As sopas, por exemplo. Ao evocar a saudade que sentia de minha mãe, ele não titubeou e me levou para uma orgia gastronômica. Confesso que me senti envergonhada e receosa, tantos foram os pratos de sopa e pedaços de pão doce e xícaras de chá – estaria ele pensando que eu sou uma esfomeada? E a noite mexicana, com direito a churros recheados de doce de leite, acompanhados de sorvete e chocolate? Sem contar os efeitos daquele manjericão embebido em vodka e maracujá, acompanhados de uma sugestiva pimenta vermelha. Se, por um lado, nos sentíamos tímidos para falar o que estávamos sentindo, por outro, os olhares e sabores deixavam claro que havia algo ali.

E assim foi: pastel de feira, bife de chorizo, batatas cor de rosa, queijo brie com geléia de damasco. Geléia que ele comprou sem sequer gostar. Queijo que durou o tempo certo para nos garantir os melhores cafés da manhã de nossa vida.

Mas de tudo isso, o que mais me dá saudade é o sorvete de manjericão. Foi por causa do sorvete que eu fui sendo, aos poucos, introduzida no seu mundo. Sua família, seus amigos, todos sabiam do seu empenho para aprender a fazer aquele sorvete, que começou como uma provocação e acabou se tornando a nossa primeira tradição. A primeira de muitas que ainda surgirão nessa vida.

Na cozinha

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Clichê estereotípico: Um pouco de poesia não faz mal a ninguém Liberdade pra quê?

5 Comentários Add your own

  • 1. Lello Lopes  |  quinta-feira, 27 março às 2:42 am

    Meu amor, tenha certeza que esta é só a primeira tradição. Muitas outras surgirão nos próximos 160 anos. Ter você ao meu lado é a coisa que mais me deixa feliz na vida. Beijos mil!

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  • 2. Trotta  |  quinta-feira, 27 março às 4:39 pm

    Bom saber que aquela casa de espeto serviu pra alguma coisa. E eu estava presente nesse momento histórico! \o/ Olha que legal!

    Aeee, isso aí, Trotta. E o jeito que vcs falam “aquela casa de espeto” parece que o lugar era ruim. Isso não é verdade… o lugar era horrível, não ruim. =P

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  • 3. Patricia Carvoeiro  |  quinta-feira, 27 março às 6:28 pm

    Que lindo, Carlinha. Mais lindo ainda clicar na foto e ver a referência que você fez à minha querida Adélia – e, mais especificamente, àquele poema, que é dos meus preferidos dela.🙂
    Muitas tradições pra vocês! Coisa boa é pra vida toda.😉

    PS: agora, uma curiosidade: esta foto é na sua casa? É que eu vi em cima do fogão uma cafeteira italiana igualzinha à que eu uso pra fazer meu cafezinho sagrado de cada dia”.🙂

    Então, Pat, a foto é na casa do Lello. Eu só tenho cafeteira elétrica, que nem é minha: é da minha mãe. Eu sou uma negação para fazer café, porque não tomo. E aquele poema da Adélia Prado é perfeito, uma das melhores traduções de amor que eu já vi nessa vida.

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  • 4. Marília  |  sexta-feira, 28 março às 12:27 am

    Mas como assim sorvete de manjericão?
    É bom?

    PS: Bom momentos ao redor de uma mesa são fantásticos! Os melhores! Os mais gostosos de serem lembrados! A dois, então, melhor ainda!

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  • 5. Elis  |  sexta-feira, 4 abril às 1:38 pm

    Hummm.. que delícia! Podíamos fazer uma orgia gastrômica aqui em casa também. ;o)
    Venham ambos, sim?

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