Archive for março, 2008

O Sorvete

Boa de garfo que sou, me encantei desde que o vi falando de restaurantes pela primeira vez. A forma de descrever aquele bistrô, aquele mexicano ou mesmo aquela casa de espetos me deixaram fascinada: se ainda não havia nascido tudo o que sentimos hoje, pelo menos uma grande admiração e uma considerável vontade de tê-lo por perto nasceram. Afinal, no mínimo ele seria boa companhia para momentos agradáveis em torno de uma mesa. E as afinidades iam além da mesa: aquele olhar era demasiadamente confortável.

Eu não sei dizer se o interesse dele despertou por aí. Apenas sei que ele ficava feliz de poder comer sem preocupações com calorias, gorduras ou açúcares. E foi assim, de prato em prato, de restaurante em restaurante que nos tornamos próximos. Do começo em uma (lamentável) casa de espetos até o último jantar, com costelinhas ao vinho tinto – de comer com as mãos e lamber os dedos no final – não consigo enumerar os momentos felizes que já passamos ao redor de uma mesa nessa nossa vida.

E se foram poucas, nossas refeições sempre foram significativas. As sopas, por exemplo. Ao evocar a saudade que sentia de minha mãe, ele não titubeou e me levou para uma orgia gastronômica. Confesso que me senti envergonhada e receosa, tantos foram os pratos de sopa e pedaços de pão doce e xícaras de chá – estaria ele pensando que eu sou uma esfomeada? E a noite mexicana, com direito a churros recheados de doce de leite, acompanhados de sorvete e chocolate? Sem contar os efeitos daquele manjericão embebido em vodka e maracujá, acompanhados de uma sugestiva pimenta vermelha. Se, por um lado, nos sentíamos tímidos para falar o que estávamos sentindo, por outro, os olhares e sabores deixavam claro que havia algo ali.

E assim foi: pastel de feira, bife de chorizo, batatas cor de rosa, queijo brie com geléia de damasco. Geléia que ele comprou sem sequer gostar. Queijo que durou o tempo certo para nos garantir os melhores cafés da manhã de nossa vida.

Mas de tudo isso, o que mais me dá saudade é o sorvete de manjericão. Foi por causa do sorvete que eu fui sendo, aos poucos, introduzida no seu mundo. Sua família, seus amigos, todos sabiam do seu empenho para aprender a fazer aquele sorvete, que começou como uma provocação e acabou se tornando a nossa primeira tradição. A primeira de muitas que ainda surgirão nessa vida.

Na cozinha

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quinta-feira, 27 março at 12:00 am 5 comentários

Clichê estereotípico: Um pouco de poesia não faz mal a ninguém

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Tabacaria – Álvaro de Campos)

terça-feira, 25 março at 12:39 am 4 comentários

Trocando em miúdos às avessas

(Aproveitando que hoje é dia da poesia.)

O primeiro livro do Pablo Neruda que eu tive foi o Veinte poemas de amor y una canción desesperada. Era uma edição de bolso, chilena. Àquela época eu estava descobrindo o que era gostar de alguém (ainda que nem de longe fosse o que eu sei que é gostar de alguém hoje em dia) e o livro acabou ficando num daqueles espólios de fim de namoro. Eu sempre pensei em ligar para ele e pedir o meu livro, mas ia ficar muito música do Chico Buarque, o que me fazia desistir.

Até que, no começo desse ano, dois grandes amigos foram para o Chile. Como eu sabia que a casa do Pablo Neruda era um dos motivos para a viagem deles, eu não resisti e fiz uma encomenda. Pedi um novo Veinte poemas de amor y una canción desesperada, que dessa vez seria ainda mais especial: viria direto da Chascona. Bom, pelo menos era o que eu acreditava quando fiz o pedido.

Foi no último fim de semana que o meu livro chegou aqui. Meus amigos me enviaram através de um portador muito especial. O livro não poderia ter chegado até mim de forma mais apropriada: junto com ele, veio a sensação mais real de gostar de alguém, de uma forma que eu jamais poderia imaginar. E, se há muito tempo o meu Neruda foi levado para nem sequer ser lido, hoje ele está comigo de volta. E junto com ele a maior certeza desse mundo:

Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.

sexta-feira, 14 março at 3:37 pm 6 comentários

Melhor pra mim

Melhor pra mim [Leoni]

Tudo é relativo
Quando te fazer feliz
Me faz feliz
Se a história for
Sempre assim
Melhor prá mim

domingo, 2 março at 1:06 pm 2 comentários

De onde vem o Papai Noel

Pergunta de uma criança muito próxima, hoje:

– Carla, criança que nasce em dia de Natal, quando fica velho vira Papai Noel?

Agora me diz: tem alguma explicação mais lógica que essa? Também acho que não.

sábado, 1 março at 12:40 am 3 comentários


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