Papo Psi: Violência doméstica. Até quando vai ser natural?

sábado, 23 fevereiro at 10:32 pm 3 comentários

Cena 1 (vizinhas conversando):

– Aquela ali apanha do marido.
– Mas também bate. Você viu que eles estavam os dois roxos ontem?
– Pois é a vida: tem quem goste assim
.

Cena 2 (pai falando com o professor):

– Quando eu chegar em casa, a varinha vai comer.
– Mas adianta?
– Sempre adiantou. Semana passada ele apanhou, semana retrasada também. Só apanhando ele aprende.

Cena 3 (aluno em sala de aula):

– Mas sabe o que é, professora? Tem mulher que gosta de apanhar. A minha vizinha, por exemplo, se não apanha, não deixa o marido dormir. Eu que não vou me meter.

Das três cenas aí de cima, pelo menos uma eu presenciei nos últimos seis meses. As outras duas é bem possível que você tenha presenciado. E me assusta perceber o quanto a gente considera “normal” a violência que acontece dentro de casa.

Violência doméstica não é só dar tiro na mulher porque ela demorou no mercado. Violência doméstica também é a mulher destratar o marido quando ele chega em casa. Aliás, violência não precisa ser física, pode ser psicológica. O filme espanhol Te doy mis ojos (trailler), de 2003, é uma ilustração bastante fiel do quanto a violência doméstica extrapola o limite da agressão física: uma pessoa cotidianamente agredida não consegue estabelecer vínculos afetivos. É uma pessoa que está condenada a não confiar: não confiar nos pais, não confiar no parceiro, não confiar no chefe, não confiar nos amigos. Se eu aprendo que a cada falha eu vou apanhar, que a cada mudança climática (ou derrota do time) eu vou tomar uns tapas, como eu vou estabelecer uma relação afetiva e não violenta com qualquer pessoa?

Para compreender o fenômeno é importante mudar o foco. Sair do agredido e partir para o agressor. O que leva uma pessoa a se tornar um agressor? Agressores são formados com modelos de agressão. Crianças que crescem presenciando os pais se agredindo provavelmente acharão “normal” que um exerça esse poder violento sobre o outro: porque é mais forte, ganha mais ou é o responsável pela casa. Enquanto filhas de mulheres agredidas tenderão a naturalizar o “apanhar”, filhos de pais agressores tenderão para o “bater”. A aprendizagem se dá pelo modelo.

Já passou da hora de repensarmos (e tentarmos eliminar) as reações violentas que ocorrem dentro das nossas casas. Repensar nossas respostas às adversidades, nossa visão de mundo: será natural que “quem pode mais, bate e quem pode menos, apanha”? São esses os lugares que queremos ocupar em nossa relação com o mundo? Quais as conseqüências disso para a sociedade?

Estabelecer um novo repertório de comportamentos, não violentos e baseados no afeto, na racionalidade e no respeito ao outro é trabalho para gerações. Mas isso não é justificativa para não darmos o primeiro passo.

Quer saber mais?

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3 Comentários Add your own

  • 1. Luciana  |  domingo, 24 fevereiro às 12:56 am

    Sim… ano passado mandei chamar muitos pais de alunos meus da quinta série.
    Um dos alunos implorou pra que não chamasse o pai dele e até mesmo os amigos dele pediram também, porque do contrário ele apanharia feio do pai.
    Coloquei pra sentar na frente e disse que não chamaria, mas que dali em diante ele participaria das aulas. E assim foi.
    O pior é que esse mesmo pai sempre ia na escola perguntar do filho, dar uma de bom pai, mas no fundo a lei da agressão é que impera na casa dele.
    Temos que escrever um artigo juntas, sim?

    Lu, o que mais me espanta é ver que esse tipo de violência pai-filho é justificada o tempo todo em nome da educação. Ninguém pára pra pensar que se a criança apanha toda a semana é porque ela não está aprendendo. E pessoas supostamente esclarecidas defendem isso, usando a própria experiência como parâmetro. Como se o fato de ser mais velho, mais rico, mais conhecedor das coisas do mundo desse a alguém o direito de dispor sobre o corpo (e a alma) do outro como bem entender. E sim, nosso artigo tem que sair. =)

    Responder
  • 2. Parto anônimo « A vida como a vida quer  |  segunda-feira, 25 fevereiro às 7:16 pm

    […] tem a ver com parto, mas como é sobre família (violência familiar), deixo uma dica de leitura: Violência doméstica. Até quando vai ser natural? no blog da […]

    Responder
  • 3. Mariana  |  quarta-feira, 27 fevereiro às 9:33 am

    Mto bom texto e também concordo.
    Vivemos numa sociedade q é comum esse tipo de violência.
    Ontem no metrô ouvi que “um cara” de uma facada “na mina”, e como cometário final : “mas também , tava saindo com outro”, como se a violência tivesse justificativa …

    Mariana, como se ela fosse “posse” dele, certo? É um absurdo que isso continue sendo considerado normal na sociedade, ninguém é dono de ninguém. A violência se baseia na noção de posse: teu corpo é meu, se eu quiser esfaquear, eu posso. Só nos resta denunciar o que está à nossa mão e procurar explicitar sempre esses discursos que passam despercebidos, certo?

    Responder

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