Papo Psi: “(…) mas se o drogado fosse meu filho (…)”

quarta-feira, 26 setembro at 7:38 pm 8 comentários

Contexto:
(1) Para quem não sabe, eu pesquiso fatores de risco em adolescentes para uso de substâncias psicoativas. Desde fevereiro é isso que norteia pelo menos metade das minhas leituras, dos meus escritos, da minha participação em fóruns, congressos e seminários. Isso faz de mim uma chata que tem cinco pares de antenas permanentemente ligadas quando o assunto é uso de substância (de cigarro e álcool a ketamina). Apesar de saber que ainda tenho muita coisa para aprender, já sei umas poucas coisas que me fazem posicionar de uma forma um pouco mais incisiva quando o assunto é esse.

(2) Como estudante da área de Saúde (na Psicologia isso é meio nebuloso, mas vamos deixar assim aqui), eu espero um comportamento de Profissionais da Área de Saúde dos outros estudantes dessa área. O que é isso? Resumindo, falo em comprometimento ético, estudo, leitura, atenção triplicada aos próprios discursos e preconceitos. Entrou na faculdade, você já é profissional. Se comporte como tal.

Os fatos:
Lá estava eu, devolvendo uma pilha de livros para retirar outra na biblioteca. Até que chega aos meus ouvidos: “Mas se o DROGADO fosse meu filho(…)”; “Porque o DROGADO (…)”. Aquele DROGADO ecoou no meu cérebro. Vindo de um grupinho vestido de branco, doeu ainda mais. Se antes de começar a estudar Transtornos Relacionados ao Uso de Substância eu já tinha uma birra danada das palavras DROGADO e MACONHEIRO, agora a coisa piorou. A birra agora é contextualizada, marcada, cientificamente fundamentada.

Alguns estudos já recomendam que não se use mais o termo “Droga” para se referir a substâncias psicoativas. Primeiro porque o termo “droga” no senso comum não abarca o álcool e o cigarro (que são substâncias psicoativas com tantos danos – individuais e sociais – quanto as outras, sendo as primeiras substâncias causadoras de dependências no mundo, segundo a OMS). Segundo, porque “droga” tem uma conotação de coisa ruim e é um termo altamente preconceituoso, impedindo o diálogo já no começo.

Calma aí, Carla, você está dizendo que drogas são boas? Claro que não, padawan. Mas se você trabalha com um obeso, vai dizer para ele parar de ser guloso? Se você trabalha com um sedentário, vai dizer para ele largar mão de ser preguiçoso? É a mesma coisa com usuários/dependentes de substância: no momento em que você coloca nele a “culpa” pelo problema, acabou a empatia, acabou o diálogo.

Discursos revelam preconceitos. E para se trabalhar com questões como o abuso de substâncias não se pode ter preconceito. Para se trabalhar com adolescentes, então, menos ainda. Adolescentes são contestadores por natureza e precisam de um espaço de escuta. A política do “cala a boca que eu sei” não funciona com eles.

Nem todo adolescente que experimentar substância, se tornará dependente químico. Nem toda pessoa que faz uso de substância é dependente químico. A evolução de um quadro de uso experimental para um quadro de dependência está ligada a uma série de fatores, que vão de marcadores genéticos e existência de outros transtornos mentais (transtornos de ansiedade e depressão, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, esquizofrenia, para citar alguns) a fatores ambientais (adolescentes que não tem contato com álcool dificilmente se tornarão alcoolistas, por exemplo). A priori, não há como saber quem se tornará dependente e quem se manterá nos quadros de uso experimental ou recreativo: é uma loteria perversa. Talvez seja essa a maior razão para a preocupação de quem está perto desses adolescentes – pais, professores, profissionais da área de saúde – em relação a fatores de risco e proteção, elaboração de políticas públicas de prevenção, distribuição e propaganda (especialmente no caso do álcool e do cigarro) e de ações preventivas ou de intervenção onde o uso já está instalado.

Como disse a Dra. Analice Gigliotti na abertura do último Congresso da ABEAD, precisamos cuidar dos nossos jovens. E isso se faz com conhecimento, respeito e atenção. Jamais com preconceito.

Para saber um pouco mais:

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Entry filed under: Papo Psi, saude, violencia.

Inteligência é fundamental As garotas da Sra. Z

8 Comentários Add your own

  • 1. Luciana  |  quarta-feira, 26 setembro às 10:40 pm

    Sim, precisamos cuidar dos nosso jovens… Nós podíamos ser sócias numa escola, que acha?
    E sítio dá pra ter em qualquer lugar… Não precisa ser aqui em Belém, vai… 😛

    Responder
  • 2. Babs  |  quinta-feira, 27 setembro às 12:30 pm

    E tem gente que faz Psicologia pra montar Consultório Clínico!
    Tem tanta coisa boa pra fazer né?

    Depois quero te contar sobre minha pesquisa sobre OVP para Pessoas com Deficiência Auditiva….é tãaaaao legal!

    Beijos munis.

    Responder
  • 3. Blog do dia | Insípido.com.br © Quase Todos os Direitos Reservados  |  sexta-feira, 28 setembro às 1:24 pm

    […] Brasil-sil-sil, a minha pedagoga virtual a partir de agora, escreve uns textos muito legais. O de quarta-feira me chamou muito a atenção, tendo em vista um passado em partes relacioando ao assunto que […]

    Responder
  • 4. Patrícia Köhler  |  terça-feira, 2 outubro às 11:10 pm

    Carla, que texto bom de ler! Eu também não gosto de rótulos e preconceitos e, como você bem lembrou, isso faz com que a empatia acabe, no caso de um possível tratamento e relação médico/paciente.
    Chamar de drogado e maconheiro é o fim.
    Gostei, gostei muito das suas palavras. 🙂

    Responder
  • 5. Orlando  |  quinta-feira, 4 outubro às 12:38 am

    Totalmente off-topic, Carla, mas eu quero saber: o que é adsense?

    Responder
  • 6. Thiago Floriano  |  sexta-feira, 5 outubro às 1:12 pm

    Penso que todos nossos comportamentos são atravessados pela cultura na qual estamos inseridos, e, o discurso é uma ferramenta ideológica. Não existe saída, só atos isolados.

    Responder
  • 7. Luciana  |  sexta-feira, 5 outubro às 1:49 pm

    Ah, eu quero responder pro Orlando… adsense é um senso adicional… que se ganha escrevendo em blog… (que terrível, já fui mais criativa…) eu fico pasma comigo mesma! 🙂

    Responder
  • 8. Tryck GT  |  sexta-feira, 7 dezembro às 3:16 pm

    Bhá Carlinha, trílegal esse teu texto!
    Vou passar para uma amiga minha que também é da área!
    Beijão!!!

    Responder

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