Eu também sou brasileira

quarta-feira, 2 maio at 12:00 pm 5 comentários

O que significa ser brasileiro? Será gostar de samba, capirinha e feijoada? Estará a brasilidade escondida atrás do trio elétrico? Será que brasileiro é só o índio, o negro, o português que chegaram aqui há mais de 300 anos?

Eu sou descendente de imigrantes: italianos e portugueses que chegaram aqui em fins do século XIX. Também sou provavelmente descendente de indígenas miscigenados, uma herdeira genética dos bandeirantes que abriram o interior de São Paulo. Cresci em uma região colonizada, basicamente, por descendentes de alemães (pomeranos), italianos (do Vêneto), poloneses e ucranianos que vieram do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o que faz com que os sobrenomes tenham mais consoantes que vogais. Há também descendentes de japoneses, que primeiro passaram no norte do Paraná para então se estabelecer aqui.

O lugar onde eu moro é (era) frio, longe de qualquer tipo de praia, não possui uma população negra de tamanho estaticamente significante. Aqui não se samba, se dança o vanerão. Tomamos chimarrão, que, apesar dos olhos azuis das Omas e Nonas que o preparam, é bebida originária dos guaranis da região do Prata. Comemos churrasco, costela assada no braseiro por oito horas, as cucas feitas pelas omas e no inverno – delícia – o brodo com agnoline das nonas. Geléia é schmmier, creme de leite fresco é nata, churrasco é um grande pedaço de carne assado vagarosamente no chão. Nossos trajes típicos são pesados, fruto de um tempo pré-aquecimento global. As prendas andam cobertas do pescoço aos pés, os peões usam botas e bombachas para se proteger do vento gelado do pampa. Há os paulistas, como eu, mas esses vieram depois e acabaram incorporando muito dessa cultura indígena-européia-brasileira que veio do Rio Grande do Sul.

Falamos “bueno”, “bah”, “tu”, “piá” e “guria”. Nosso leite é leitE, não leitI, e quando está quentE nos dói o dentE da frentE. Dizemos que Santa Catarina serve para separar o Rio Grande do Sul do resto do Brasil (piada que serve tanto para gaúchos como não gaúchos).

Somos vistos como a parte “européia” do Brasil, mas deixamos de ser europeus quando nossos avós embarcaram em navios – muitas vezes insalubres – para tentar a sorte na América. Deixamos de ser europeus quando nosso avós se estabeleceram nas colônias e criaram modos de sobreviver aqui. Deixamos de ser europeus – apesar de muitas vezes não abandonar o idioma – quando fugimos de uma terra hostil para abraçar uma terra desconhecida. Não somos europeus em quase nada e qualquer um que conheça a Europa pode confirmar.

Mesmo assim somos alienados da brasilidade que corre por aí. Se você é loiro de olho azul, se o seu sobrenome tem mais consoantes que vogais, você não pode ser brasileiro: é alemão, polaco, gringo. É fato que essa nossa origem nos faz diferente do neto do índio, do neto do negro, do neto do sesmeiro português que chegou aqui em idos de 1500. É fato também que essa diversidade de origens nos possibilitaria ser a maior nação do mundo.

Possibilitaria, se não houvesse essa mania estúpida de separar os brasileiros em brasileiros e imigrantes. Essa mania estúpida de querer que um país gigante como o nosso, tão diverso pela sua natureza, tivesse um povo de uma cara só. Essa mania de achar que a comida do Norte é mais brasileira que a do Sul, ou que as danças do Litoral são mais brasileiras que as do Cerrado. De achar que eu sou mais brasileira que você, porque você come pão com geléia enquanto eu como pão com schmmier.

Grande bobagem. Porque, ouvindo com atenção, o xote de Luiz Gonzaga é muito parecido com o vanerão que toca no CTG todos os fins de semana. Somos todos brasileiros, isso sim, e é nossa diferença que nos fará fortes.

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Entry filed under: Brasil, cultura.

Power Bloggers: Luciana e Patrícia Off-topic: Mobilização contra a redução da maioridade penal

5 Comentários Add your own

  • 1. Marcelo  |  quarta-feira, 2 maio às 5:51 pm

    Bah!

    Muito bem. Falaste pouco, mas tudo está certíssimo.

    Responder
  • 2. Denise  |  quinta-feira, 3 maio às 5:12 pm

    Caramba! Escrevi sobre um assunto beeem parecido hoje, o que é ser brasileiro, mas de um outro ponto de vista, da de filha de imigrante. Sempre vejo seu blog, acho bacanas seus escritos… hehehe
    Prazer!
    Beijos

    Re: Seja bem vinda, Denise! Vou visitar seu blog para ver o que vc disse!

    Responder
  • 3. Thiago Gonçalves  |  quinta-feira, 3 maio às 7:32 pm

    Bah, guria… Que texto mais bonito. =)

    Que verdade boa essa… =)

    É um prazer morar num país assim, tão cheio de coisas que fica até difícil explicar.

    Agora, eu não me atrevo a responder essa pergunta – o que é ser brasileiro? Não mesmo…

    =*

    Responder
  • 4. Rafa  |  domingo, 6 maio às 1:50 pm

    Acho a questão da alteridade, de um modo geral, o grande desafio, não só para o Brasil, não é? Viu o muro que construíram em Bagdá? Pra muita gente, diria a maioria, não existe o “outro”, pois ele é esse desconhecido, esse menor, esse a ser desconsiderado. Pra mim, o estrangeiro está em nós mesmos e talvez não o aceitamos por significar algo que existe em nós mesmos que não queremos aceitar. Afinal, o que é o desvio, não é mesmo, mais do que uma convenção?
    Mas isso dá uma tese, ou várias.
    Amo você, e morro de saudades.

    Várias teses. E dificilmente se chega a uma conclusão, né? Mas é bom pensar nsessa coisa do medo do diferente. Negar a sua existência ou atacá-la acaba sendo o comportamento padrão. Mas nem por ser padrão é recomendado.

    Enfim, certo nível neurose acaba sendo sinal de saúde. Mas tem que cuidar pra não recalcar o que não precisa, né? Bjos, vc faz falta. (Isso é conversa pra capuccino, não pra comentário de blog, hmpft!)

    Responder
  • 5. Fer Guimaraes Rosa  |  sexta-feira, 11 maio às 8:56 pm

    assino embaixo!
    tambem sou brasileira. embora nao me encaixe em nenhum estereotipo de brasilidade–e pra completar, nem estou mais no meu antigo pedaço de chao.
    beijo!

    Re: estereótipos são tão limitantes, não? O Brasil é muito grande pra caber em estereótipos.

    Responder

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