Como criar um assassino

segunda-feira, 19 março at 6:29 pm 3 comentários

Inicie o trabalho com sua mãe. Não dê a ela, na sua infância, formas de compreender a maternidade. Não dê referências de maternidade. Não mostre o que é carinho, afeto, toque, corpo. Transforme sua vida em um servir sem motivos e sua corporeidade em um parque de diversões para outros.

Durante a gestação, a abandone. Assistência pré-natal? Isso é coisa para humanos. (Lembre-se: ela não foi humanizada.) Evite que ela tenha um parto em um local adequado, sob condições adequadas de higiene. Seja sob uma barraca na feira ou em um corredor de espera de hospital, faça com que seu parto seja uma experiência extremamente desagradável. Não dê opções para criar seu filho, fazendo com que jogá-lo no rio ou deixá-lo para morrer em meio à sujeira sejam opções tão boas quanto qualquer outra.

Pronto, você já tem o bebê. Agora é fácil. Retire-o da mãe, aquele monstro, e o entregue a uma instituição que não saberá o que fazer com ele. (Amontoar crianças sem condição nenhuma de educação é um ótimo meio de criar assassinos.) Escola? Não, coloque-o para trabalhar desde cedo. Trabalho pesado, lógico: carvoarias, vender drogas, curtir peles. (Ele não é humano, lembra? Educação é para humanos.) Faça com que ele não tenha nenhum tipo de marcação, seja na sua infância ou na sua adolescência. Maternagem, paternagem, castração? Isso é coisa de psicanalista maluco, você sabe bem.

Se ele demonstrar algum talento especial, oriente-o de forma a obter vantagens, mas não o ensine a lidar com seu desejo. Tenha sempre em mente que ele não é humano – afinal, você quer criar um assassino.

Seguindo essa receita, você provavelmente terá o seu menino. Daí para frente a vida se encarrega: Não tendo sido ensinado a lidar com o próprio desejo, ele usará de todas as forças para satisfazê-lo. Não tendo aprendido o que é ser humano, ele não agirá como tal. Não sabendo o valor que a vida tem, ele não verá esse valor na vida alheia. Nesse caminho, é bem possível que ele cometa algum crime hediondo – afinal, ele não sabe o que é crime, tampouco o que é hediondo.

Quando isso acontecer, suba no púlpito e o julgue. Diga que não há mais conserto (realmente, não há). Chame-o de monstro (realmente, é o que ele é). Condene-o. Clame que ele poderia ter escolhido outro caminho (você sabe que não poderia). A horda humana se juntará a você para condená-lo e colocará todos os seus ódios e suas forças para vingar-se.

Funciona. A modernidade garante.

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Sim, esse texto é absurdamente inspirado naquele filme. Mas eu não vou falar o nome aqui para não virar spoiler.

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Entry filed under: crime, violencia.

A Paixão segundo CR: São Paulo Verbete

3 Comentários Add your own

  • 1. Amábyle  |  terça-feira, 20 março às 1:13 am

    O meu professor conseguiria discordar da tua opinião.

    Acredite, ele conseguiria.

    Eu concordo, e acho que cadeia como elemento de “reconstrução de valores,educação e afins e/ou reabilitação” são uma linda utopia da antiguidade.

    (como contraponto à receita da modernidade!).

    Mas é comodo acreditar nisso e mandar os “menores” (em que sentido, ein? além do referente à idade?) para as “escolas do crime” (a real formação que eles adquirem). Afinal, “eles não têm conserto mesmo!”.

    Monstros são os seres originados, ou os que originam?

    Re: Amabilete, eu gosto que discordem de mim, manda seu professor passar aqui! (Que professor, aliás?) O fato é que, chegado um certo ponto, é muito difícil – para não falar impossível – acertar as coisas. É a psicose, a perversão, em níveis avançados. Uma vez perdida a conexão com a realidade, ou melhor, não formada a conexão com a realidade no momento certo, pluft, acabou. Que venham os humanistas, os behavioristas e me façam acreditar no contrário – eu quero muito acreditar no contrário – mas por enquanto eu não consigo.

    Respondendo à tua pergunta, monstros são os produtos, os que produzem são outra coisa. E eu não posso falar o nome aqui porque não é palavra de sair da boca de moça bonita, certo?

    Beijos.

    Responder
  • 2. Cíntia  |  terça-feira, 20 março às 3:07 pm

    Eu sei, eu sei, eu sei que filme é! Ah, adoro seu blog, viu? Beijo!

    Psss… Cíntia, não conta! =)

    Responder
  • 3. Rafa  |  quarta-feira, 21 março às 12:30 am

    Oi querida!
    Adorei o post, mas ainda não vi o filme, apesar de ter sido minha leitura báááá´sica de dólis.
    Bjus e muitas saudades!

    Re: Amore, você lia umas coisas muito power blaster quando era dólis. E eu, só coleção vagalume… =) Beijos, beijos, beijos.

    Responder

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