A Paixão segundo CR: São Paulo

sábado, 17 março at 8:37 pm 7 comentários

Falar mal da vida nas grandes metrópoles, especialmente de São Paulo e do Rio, é o maior clichê dos últimos tempos. Canso de ouvir frases do tipo “a qualidade de vida no interior é muito melhor”, “Ninguém merece essa cidade”, “São Paulo não tem mais jeito”. Aí eu pergunto: jeito para quê, cara pálida? Não é, no mínimo, curioso que vinte milhões de pessoas vivam num lugar tão ruim quanto pintam por aí?

Nunca morei em São Paulo, apesar de passar lá boa parte da minha vida e ter nos seus cantinhos grande parte das minhas referências culturais, sociais e de personalidade. Não sei se viveria lá – confesso que tenho um medo danado daquele monte de prédio, monte de gente, monte de carros – nem posso falar sob a perspectiva de quem enfrenta o boitatá todos os dias (deixo isso para o Doni, que o faz tão bem).

Falo da minha perspectiva, a de quem adora andar no Centro Velho, pegar o metrô e chegar à Paulista em 15 minutos para tomar um café e comprar uns livros na Cultura. Da perspectiva de quem sente uma falta danada das exposições do MASP e da Pinacoteca. De quem vai à feira todas as quintas mas sabe que o melhor pastel é o de lá. De quem sonha com o Mercado Municipal e com seus doces portugueses, árabes, japoneses, suas frutas e condimentos. De quem compra filme na Conselheiro e depois fica economizando para durar até a próxima viagem. De quem vai à Galeria do Rock só para olhar as vitrines. De quem tem grandes amigos na selva de pedra, uma amizade sem preguiça de atravessar a cidade. De quem morre de saudades da pizza do Marco Luccio, da esfiha do Garabed, do café do Cafeera, das eclairs de chocolate da Ofner, do sanduíche de pernil do Estadão. De quem lê a Ilustrada e fica sonhando com os concertos, as peças, os shows, os restaurantes e os botecos.

Há problemas em São Paulo, como há em qualquer lugar. Boa parte deles, é verdade, é fruto de falta de planejamento urbano e falta de manejo ambiental. Isso sem contar na falta de noção do povo, que ainda insiste em jogar lixo na rua, não pressiona as autoridades por um manejo decente do lixo, das águas pluviais, que lava as mãos e deixa para reclamar quando acontece algum desastre. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa boa, que não consigo entender como podem falar tanto do que é ruim e esquecer o que é bom. Fica o conselho: Se você não conhece São Paulo, vá. Fique uma semana e conheça o melhor e o pior do Brasil. Você vai se supreender.

Mercado Municipal

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7 Comentários Add your own

  • 1. rleite  |  domingo, 18 março às 12:51 am

    oi …uma sugestão….
    faz de São Paulo uma cidade invisível, como as tantas criadas por Calvino…. vc leva jeito pra coisa….gostei do seu texto….e olha…q eu me incluo naqueles q odeia Sampa…embora tenha irmão morando lá….
    sou nordestino….e por incrível q pareça tenho os mesmos hábitos urbanos por aqui…

    Re: Como assim, cidade invisível? Em momento algum eu quis dizer que não há hábitos urbanos fora de São Paulo (essa é outra briga minha, porque eu também moro no interior). O que eu quis dizer é que São Paulo é muito injustiçada pelos filtros que se aplicam a ela quando se diz que “odeia” ou “ama”. É o melhor e o pior do Brasil, de mãos dadas.

    Obrigada pela visita! Apareça sempre.

    Responder
  • 2. rleite  |  domingo, 18 março às 12:53 am

    so pra corrigir um errinho de concordancia…pra nao sair falndo do nordestino…”naqueles q odeiam Sampa”…ok

    Re: Fique tranquilo que aqui a gente não sai falando de ninguém, não por causa do lugar de onde eles vêm, pelo menos. 😉 Se você não tivesse citado, eu nem teria visto o errinho!

    Responder
  • 3. Diabo  |  segunda-feira, 19 março às 1:10 pm

    Também amo São Paulo de paixão. É a minha segunda cidade. E a primeira é tão problemática quanto (se duvidar, até mais).

    Re: Será que existe cidade que não seja problemática?

    Responder
  • 4. Thiago  |  segunda-feira, 19 março às 1:58 pm

    são paulo… eu amo são paulo. com todas as forças. a força é tanta que quando falam mal de são paulo, o máximo que eu consigo fazer é um “pff…” desdenhoso.

    pra gostar de são paulo, permita-se são paulo. aí vai… a velha cantilena da “selva de pedra”, suja, fedida e “sem praia” morre no mesmo segundo.

    minha terra… não importa onde eu estiver. (aliás, ando achando que isso é um dos meus grandes problemas.)

    ‘brigado por me fazer lembrar dela nessa segunda-feira modorrenta.

    um beijo.

    ps: perdoa o sumiço. vida loca vida-a, vida breee-ve…

    =*

    ps2: mas eu volto.

    =**

    Re: volte, você faz falta. Beijos.

    Responder
  • 5. tarsischwald  |  segunda-feira, 19 março às 6:46 pm

    Carla, desculpe, mas …
    “Nunca morei em São Paulo…” Isso explica seu discurso.

    Explica o porquê você considera clichê meter o pau aqui na Kassabilância.
    São Paulo tem mais problemas porque é a maior – tudo bem.
    O problema é que a vida é uma só, e as vezes os problemas são maiores que a própria vida.

    Qualidade de vida não é clichê. São Paulo não oferece qualidade de vida para quem é pobre. Oferece alternativas, paliativos e subornos, para a gente levar a vida antes que ela nos leve. Melhor passar dificuldades em uma cidade grande? É. Mas enche o saco.

    São Paulo é uma linda prostituta de 200 reais. As vezes você tem grana e pra comê-la, mas na maior parte do tempo, você só olha ela na esquina.

    Para quem é pobre, todo lugar é ruim, mas aqui a gente engana bem.
    Para quem tem grana, até o Iraque deve ser bom. Aliás, aqui em SP, morre mais ou menos a mesma quantidade de pessoa que lá, mas oficialmente, não temos guerra.

    Então.. não falo “mal” de São Paulo. Aceito os problemas porque preciso viver aqui. E sim, eu gostaria de sair – o quanto antes – para algum lugar onde eu vivesse sem tanto estresse.

    Beijo!

    Re: Tarsisvaldo, eu sei que é F morar em São Paulo. Disse e repito: eu não aguento morar em São Paulo, a cidade me engole antes de eu tirar a mudança da caixa. Minha cabeça é cabeça de turista, sim, e eu queria que isso tivesse ficado claro no texto. (Para defender São Paulo morando aí eu deixo a Monica e o Doni.)

    Para quem é pobre, qualquer lugar é ruim. Para quem é rico, nem todo lugar é bom. (Não sei se eu acharia legal ser rica no Iraque. Ou no Afeganistão.) Qualidade de vida, felicidade, tem um pouco a ver com grana e MUITO a ver com ambiente – que é determinado pela grana, essa enxerida, mas não só por ela.

    Crescer em São Paulo é complicado sim. Crescer no sentido de trajetória de vida, aquela coisa “olha quem eu era, olha quem eu me tornei”. Não há espaço. (Por isso que eu fico aqui.) Eu sei que qualidade de vida não é ficar quatro horas engarrafado. Nem respirar ar poluído que te garante o status de fumante passivo mesmo sem você fumar ou conviver com fumante. E aí acho que a gente concorda.

    Agora, voltando à vaca fria, o que me irrita é ver caras palidas reclamando de São Paulo quando tem plenas condições de sair daí – e não querem. Quando tem plenas condições de fazer algo para melhorar – e não o fazem. Mas aí não é uma questão de defender São Paulo, ou o Rio, ou Cascavel. É uma questão de querer coerência. Porque a reclamação não vem de quem vê gente morrer todos os dias – infelizmente. Esses vão levando a vida esperando alguém fazer o que eles não sabem o que é para melhorar.

    E, se você quiser conhecer Cascavel pra ver se aqui tem menos stress e de repente estabelecer a quintessencia nas entranhas co. por aqui, seja bem vindo! A gente toma um café e proseia um tempão!

    Beijo.

    Responder
  • 6. Donizetti  |  segunda-feira, 19 março às 10:49 pm

    Vc conseguiu em poucas linhas elencar boa parte dos motivos pelos quais eu não deixo a minha Paulicéia desvairada e linda!

    Responder
  • 7. tarsischwald  |  terça-feira, 20 março às 11:25 am

    Carlota Joaquina, vamos ver..

    “Agora, voltando à vaca fria, o que me irrita é ver caras palidas reclamando de São Paulo quando tem plenas condições de sair daí – e não querem. ”

    – Concordo. Mande um contato meu para conversar com essas pessoas. Aceito troca!

    “E, se você quiser conhecer Cascavel pra ver se aqui tem menos stress e de repente estabelecer a quintessencia nas entranhas co. por aqui, seja bem vindo! A gente toma um café e proseia um tempão!”

    – Opa, opa, opa.. não nos convide levianamente!
    Esse convite é tentador!!! Podemos conversar, sim.

    Por fim, deixo esse amor sadomasô para o Doni. Se bem que até onde eu sei, ele se refugia em um bairro bem afastado da cidade… ¬¬

    Beijo.

    Re: (Carlota Joaquina? Eu mereço…) Não foi um convite leviano: quando quiser aparecer por aqui, visitar as cataratas, a argentina (o Paraguay não, tudo menos o paraguay. eu mostro o caminho da ponte e espero, tá?), estamos às ordens! Beijo.

    Responder

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