O mundo não é uma Barraca do Beijo

sexta-feira, 9 março at 7:35 pm Deixe um comentário

A menina se monta, se olha milhões de vezes no espelho, de frente, de lado, do outro lado, de costas, sentada, de pé, dança um pouco, tudo para ver se o modelo funciona.

Então ela resolve testar o modelo in loco e vai assistir a um espetáculo de dança. Depois de dezenove olhadas para a sua saia, treze olhadas para o colar e um leve despeito percebido no tom de voz das acompanhantes, chega à conclusão que funciona. Ótimo. Ela precisava dessa confirmação.

Mas tem um detalhe: ninguém quer acompanhar o desfile da montagem nova. Ou está frio, ou o dinheiro acabou (o dela também, mas ela ainda não tinha percebido isso), ou o namorado não quer sair (ela não tinha convidado o namorado, mas tudo bem). E fica o dilema: fazer cara de paisagem e sair sozinha ou desmontar-se toda e ficar em casa? Melhor pensar nisso depois do jantar.

Ela faz as contas: já perdeu uns quarenta minutos (por baixo) pra se montar. Já passou delineador de pincel (para ela, isso é muito difícil). O modelo está ótimo. A vontade de dançar já incomoda há, no mínimo, uma semana. A banda é boa. Hoje ela tem dinheiro (depois de dois meses sem receber, isso é algo para se comemorar). E as cem primeiras mulheres ganham uma caipirinha de morango. Decidido! É hoje que ela vai dançar.

Ela chega cedo (e ganha a caipirinha de morango). O bar ainda está vazio, a banda só deve começar a tocar dali a um tempinho. Poucas pessoas no bar, nenhuma conhecida até agora. Algumas pessoas interessantes… ei, que música é essa? É a música dela! Número um nos Estados Unidos e na Inglaterra no dia em que ela nasceu! É um sinal. Só pode ser.

Depois da música dela, Ring My Bell. Ela não se contém, liga para o amigo “amigo, você devia estar aqui”. Ela percebe que a melhor coisa do mundo é estar bem consigo mesma, e dane-se o fato dela estar sozinha. Tocou a música dela, agora toca Ring My Bell. Para ficar perfeito falta pouco. A menina nesse momento lembra de um texto e concorda. Um DJ pode, sim, salvar a sua vida.

A banda começa a tocar. A caipirinha de morango estava muito boa. A banda começa tocando hits daquela banda mineira que tem nome de super-herói de segunda classe e faz versos toscos. Ela não se conforma até hoje com “o amor é o calor que aquece a alma”. Só faltava uma Dor aí perto para ficar pior. “Xi”, ela pensa, “entrei em fria”. Dane-se. Foi para a chuva, agora se molhe. É hora da tática número dois* para se divertir sozinha: se posicionar estrategicamente perto de um grupo de pessoas, de forma que quem olha de longe não consegue definir se ela está só ou acompanhada. (A tática número um é ficar encostada no bar tomando qualquer coisa lentamente. Muito lentamente, senão você se embebeda.) Lá vai ela, estrategicamente se posicionar para olhar a banda.

Ela dança bem. Ela sabe disso. E vem um maluquinho dançar com ela. Maluquinho. Doido de pedra. Fora do corpo, fora da casinha. O cara vem dançar e traz consigo a She-Ra, o He-Man e o Mentor. Greyskull inteira está ali. Não, ela não quer isso para terminar a semana. Melhor tomar água, dar um tempo. Parada estratégica próxima do balcão.

Depois de um intervalo, ela volta pro seu posto. Olhando para o lado, ela vê: Bonitinho. Pinta de cafajeste. Olhando. Okay. Vamos lá. Retribui os olhares. E continua dançando (foi para isso que ela saiu de casa, foi para isso que ela pagou ingresso). A banda se revela muito melhor que no começo, a essa altura do campeonato a pista já está toda integrada, todo mundo dançando. E o bonitinho olhando. Ela vai ao banheiro. Uma, duas, três vezes. No balanço final foram seis garrafas de água mineral. Não é à toa. E o bonitinho está estrategicamente posicionado perto do banheiro feminino. É cafajeste profissional. Mas, como na música daquela outra banda pouco estimada por ela, ela só quer dançar, dançar, dançar.

De repente o bonitinho some. E no lugar dele já se posiciona outro bonitinho. Se o bar cobrasse mais caro para quem senta ali, teria lucro. É a mesa preferida dos cafajestes. O bonitinho número 2 é mais bonito que o bonitinho número 1. E o bonito olha. Ela vai ao banheiro (três litros de água, três litros de água), passa pelo bonito. O bonito não tem pinta de cafa, apesar da atitude totalmente “macho-branco-sentado-na-beira-da-pista-segurando-o-queixo”. Ela continua dançando.

Um pequeno comentário sobre moda e estilo: dançar de saia godê é muito gostoso, mas requer muito cuidado, especialmente ao girar, senão a saia sobe até o pescoço.

Ela não pára de dançar. (Ela lembra da nutricionista dizendo que, depois de uma hora e vinte minutos contínuos de exercício, o organismo usa as reservas de gordura para obter energia. Ela já dançou duas horas e meia. Ela não pode parar, ela está fazendo atividade física. Foi a nutricionista que mandou.) E o moço não pára de olhar. Oferece cerveja, ela agradece, mas não consegue entender qual a graça que as pessoas vêem nesse líquido amargo e cheio de bolhas. Continua dançando. O moço sorri. Ela retribui. Ela não pára de dançar.

Banheiro, de novo. Passa pelo moço. Mas ela demora, e quando ela volta, o moço não está mais lá. As amigas-de-pista (sim, depois de três horas dançando ela já tem amigos-de-pista) dizem que vão embora. O pé dela dói. O sapato aperta. Se ela parar, o sono vem. Já é tarde. A banda já parou de tocar. A noite foi boa, e está na hora de ir para casa.

Chapelaria. Ela lembra que a atendente da chapelaria foi sua manicure há muito tempo. Elas conversam. Ela pega seu casaco, paga sua conta e vai embora. A noite foi muito boa. Já havia algum tempo que ela não se divertia tanto.

Perto da saída, encontra o bonitinho. Os dois bonitinhos. Juntos. Pelo jeito, são amigos. O bonitinho número dois cumprimenta, pergunta aonde ela vai. Quando ela diz que está indo embora, ela ouve a bomba: “Mas você vai embora sem me dar nenhum beijo? Eu não acredito”. Ela ri e sai.

Ela não trabalha na barraca do beijo. Pode acreditar.

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Originalmente publicado no Já Pra Casinha!!! em 22 de agosto de 2005.

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Hoje eu chorei muito. Um pouco por tristeza, um pouco por alívio, um pouco por alegria. Alegria maior foi causada por um certo moço que me colocou ao lado de grandes mulheres-meninas no rol das 20 blogueiras bonitas. Ian: saiba que você é uma das melhores coisas que a internet já me deu.

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Não é por preguiça que eu sumi. É por tendinite. Mas eu voltarei, com a graça do Diclofenaco!

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Os 5 melhores beijos que eu NÃO dei As noites da Sra. Z.

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