27 citações: Palomar (Italo Calvino)

terça-feira, 10 outubro at 5:59 pm 2 comentários

O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação é preciso um temperamento conforme, um estado de ânimo conforme e um concurso de circunstâncias externas conforme: e embora em princípio o senhor Palomar nada tenha contra a contemplação, nenhuma daquelas três condições, todavia, se verifica para ele. Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objeto limitado e preciso.

[…]

Em suma, não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles também complexos a que essa dá ensejo. Tais aspectos variam continuamente, decorrendo daí que cada onda é diferente de outra onda; mas da mesma maneira é verdade que cada onda é igual a outra onda, mesmo quando não imediatamente contígua ou sucessiva; enfim, são formas e seqüências que se repetem, ainda que distribuídas de modo irregular no espaço e no tempo.

[…]

Homem nervoso que vive num mundo frenético e congestionado, o senhor Palomar tende a reduzir suas próprias relações com o mundo externo e para defender-se da neurastenia geral procura manter tanto quanto pode suas sensações sob controle.

[…]

o senhor Palomar não perde o ânimo e a cada momento acredita haver conseguido observar tudo o que poderia ver seu ponto de observação, mas sempre ocorre alguma coisa que não tinha levado em conta. Se não fosse pela impaciência de chegar a um resultado completo e definitivo de sua operação visiva, a observação das ondas seria para ele um exercício muito repousante e poderia salvá-lo da neurastenia, do infarto e da úlcera gástrica. E talvez pudesse ser a chave para a padronização da complexidade do mundo reduzindo-a ao mecanismo mais simples.

[…]

Prestar atenção em um aspecto faz com que este salte para o primeiro plano, invadindo o quadro, como em certos desenhos diante dos quais basta fecharmos os olhos e ao reabri-los a perspectiva já mudou.

[…]

É pena que a imagem que o senhor Palomar havia conseguido organizar com tanta minúcia agora se desfigure, se fragmente e se perca. Só conseguindo manter presentes todos os aspectos juntos, ele poderia inicar a segunda fase da operação: estender esse conhecimento a todo o universo.

Bastaria não perder a paciência, coisa que não tarda a acontecer. O senhor Palomar afasta-se ao longo da praia, com os nervos tensos como havia chegado e ainda mais inseguro de tudo.  (Palomar. Italo Calvino)

Conheci Italo através de Palomar. Conheci Palomar através de um grande amor que, ao saber que eu estava estudando avaliação escolar na iniciação científica, apareceu em minha frente com o livro em mãos dizendo: “Ouça. Isso tem tudo a ver com o que você está fazendo.” e leu esse trecho que eu cito para abrir a série das vinte e sete citações.Fosse apenas pela indicação, Palomar já seria um dos livros mais especiais que já li. Mas não é só isso. A escrita de Calvino reflete com sensibilidade a condição desse homem (e dessa mulher, antes que alguém reclame) pós moderno, que se perde e não consegue encontrar um chão sólido para a vida que leva. Nada mais justo então, que seja essa a citação que abre (mais uma) série do Enquanto… A quem se interessar, o livro se torna uma daquelas leituras fundamentais. Tenho quase certeza que todos temos algo a aprender com o senhor Palomar.

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Entry filed under: 27 citações, cultura.

Angelus Longo e tenebroso inverno

2 Comentários Add your own

  • 1. Babs  |  quarta-feira, 11 outubro às 11:16 am

    Palomar, você já tinha me falado desse moço.
    Sabe, eu tenho tanta coisa boa pra ler e cadê o tempo? As vezes parece que tenho tempo mas não tenho “o tempo” que eu queria pra me dedicar a essas leituras!

    (saco!)

    Beiba, tá tudo bem contigo?
    Amo, saudadesss

    Responder
  • 2. Thiago  |  sábado, 14 outubro às 1:26 am

    Uma amiga, queridíssima, encenou uma peça baseada num conto do Calvino. Não sei exatamente o nome do conto, mas me recordo de que falava sobre cogumelos. Cogumelos que cresciam na cidade grande e agitada, e que de alguma forma passou a interferir na vida das pessoas – que custaram a notar a presença deles… Enfim. O fato é que a história era muito bonita, a apresentação ainda mais – por ser encenado por uma queridíssima amiga e por eu estar acompanhado de alguém bastante especial – e me lembro de sair de lá querendo ler tudo o que pudesse do sr. Calvino. As obrigações dos dias que se seguiram me fizeram esquecer, me impediram de ver os meus próprios cogumelos. Acabei de lembrar. De tudo. Dos cogumelos, das duas pessoas daquela noite, do encantamento, da alegria pelo momento… Obrigado por isso, moça. De verdade.

    Responder

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