Angelus

segunda-feira, 9 outubro at 9:09 pm 3 comentários

Não sei se é zeitgeist, coincidência ou apenas sincronicidade, mas o fato é que nas últimas 24 horas me peguei muito pensando em fé. Na minha fé e na fé da humanidade. Nos motivos que nos levam a crer e nas coisas que criamos para não nos sentirmos sozinhos.

Assim como a troca de bens e de mulheres, a crença na existência de algo maior – ou externo, está presente em quase todas as culturas e sociedades primitivas. Até onde eu sei – se eu estiver errada, por favor alguém me corrija – o ateísmo é uma condição moderna. Assim, enxergar a fé como uma necessidade básica e original do homem não me parece algo tão absurdo. A busca do propósito surge com a busca de explicações: Por que chove? Por que há a noite e o dia? O homem primitivo, dessa forma, explicava o seu mundo e a si mesmo com a fé. Deuses foram criados. Historicamente, alguns panteões foram relegados à condição de mitologia, enquanto outros se estabeleceram de forma dogmática (utilizando-se, muitas vezes, de aparato político, econômico e militar).

Com a valorização das explicações científicas houve uma mudança nos padrões para o estabelecimento da fé. Não me basta saber o quê, é necessário saber como, por quê. Deuses não podem existir per se, tudo tem sua origem. Aliado, talvez, a indícios de falência generalizada nas instituções durante as décadas de 1960/1970, começam a surgir explicações “científicas” para as verdades milenares. Seriam os anjos extraterrestres? Eram os deuses astronautas? E assim a humanidade caminha em busca de um deus “claro”, “científico”.

Em contraposição a esse movimento, começam a surgir aqueles que vêem na ação social o grande papel da religião. No caso da Igreja Católica brasileira, isso se reflete na criação das Comunidades Eclesiais de Base, das Pastorais e da Teologia da Libertação – que acaba por ser calada, por se afastar demais dos dogmas católicos.

Independentemente da via escolhida para a fé, tudo passa pela percepção humana. Sem maiores tergiversações, a consciência ainda não foi totalmente compreendida pela ciência. Qual é o seu processo, de onde vem e para onde vai? A única coisa que é certa, nesse ponto, é que toda a experiência humana é interpretada de acordo com as vivências prévias do indivíduo. Essa premissa é fundamental para entendermos de onde vêm a nossa fé e, a partir daí, aceitarmos a fé alheia.

Sempre haverá a possibilidade de um último propósito, não explicado. A ciência, por suas características, jamais chegará a esse último propósito. Rubem Alves costuma dizer que os diferentes tipos de conhecimento são redes diferentes, utilizadas na pescaria de peixes diferentes. Qualquer tentativa de misturá-las será frustrante, na melhor das hipóteses. Na pior hipótese, resultará em falácias e pseudo-ciências.

Para construir a tolerância, evitar mortes em nome de deuses intangíveis, aprender a ouvir o outro e compreender suas razões, é fundamental que haja uma compreensão do processo que nos leva a crer em A ou B. O que não é conhecido é temido. O que é temido, acaba por ser atacado.

Sigamos então em paz, com nossos deuses são criados por nós. Que eles nos ajudem a viver outra das idéias redundantes da humanidade: o melhor caminho é viver fazendo o bem, ajudando o próximo e evitando dar maior importância a coisas que não fazem nenhuma diferença em nossa vida.

Anúncios

Entry filed under: cultura.

50 Músicas que marcaram a minha vida: Help! 27 citações: Palomar (Italo Calvino)

3 Comentários Add your own

  • 1. João Vitor  |  segunda-feira, 9 outubro às 9:51 pm

    Um belo texto!
    Conseguiu tratar de pontos importantes e com certa neutralidade na sua própria opinião no assunto!

    É um buraco a ser eternamente aberto! Talvez os Agnósticos são os que cheguem mais próximo de uma opinião consistente! Psicanaliticamente falando é um ponto neutro entre dois polos à serem recalcados! (ehehe, A ju que o diga =D).
    Enfim, minha opinião ainda tende ao ateismo! Limito-me à considerar que toda forma superior de vida que seje pró-humana é meramente impossivel! Por isso considero necessário separar um deus criador em função da raça humana, de um evento extra-físico (ou metafisico?) do qual possa ter surgido os primeiros vestigios de matéria no universo! Enfim, isso é algo que vai além de nossa concepção!

    Resta-nos manter o bom senso, e saber mediar que com ou sem deus, o homem ainda é uma entidade importante! Salvemo-nos então!

    Belo texto Carla.. Bjos..

    Responder
  • 2. Arivonil  |  terça-feira, 10 outubro às 1:07 pm

    Receitinha pra ser feliz e deixar o mundo (bem) melhor:
    Fazer a coisa certa, sempre… ou, como diria
    o Dorival Caymi em ‘Peguei um ita no Norte’:
    “Meu filho ande direito Que é pra Deus lhe ajudar”

    Currupaco

    Responder
  • 3. Carla do Brasil  |  terça-feira, 10 outubro às 1:58 pm

    João:
    foram os deuses que fizeram a gente discutir O Mal Estar na Civilização depois de eu escrever esse texto. Vai dizer que vc não acredita? =P Enfim, me deu vontade de dizer para a Ju ler o texto. Ela acrescentaria algo, eu acho. Ou não, só perguntaria, daquele jeito psicanalítico dela.

    Arivonil:
    Fazer a coisa certa. Só a coisa certa. Ou, se for fazer coisa errada, fazer do jeito certo! =P Currupaco!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Agenda

outubro 2006
D S T Q Q S S
« set   nov »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Most Recent Posts


%d blogueiros gostam disto: