A Sra. Z não consegue imaginar o que seria da sua vida sem essas garotas. Não que os garotos não sejam importantes, mas é nessas garotas que ela se espelha quando as coisas apertam. Pudesse, a Sra. Z engoliria uma por uma, num ritual antropofágico para tornar-se invencível.
[Embora sozinha ela não dê conta de muita coisa, junto com essas garotas a Sra. Z é invencível.]
E são tantas essas garotas. De tantas origens, de tantos jeitos. Tem a garota morena, que dança Carimbó, com seu jeito de moça brava e sua dedicação tremenda. Com ela a Sra. Z aprendeu a fazer tudo com paixão. Com ela a Sra. Z aprendeu a se atirar, que não é mau tomar partido. Vem dela a paixão pelas coisas da terra, pelo cheiro de andiroba e pelos bombons de cupuaçu.
Também tem a garota da serra, de sorriso largo e pele de bebê. Dessa garota a Sra. Z aprendeu que é tudo é possível, se não não desistir. Que nada substitui o trabalho duro e o mérito. Que há vários caminhos a seguir, basta olhar para o lado. Que as pessoas vêm e vão, mas uma vez marcadas na alma, não há o que faça o vínculo sumir.
[Algumas coisas acontecem tão rápido, e mesmo assim a Sra. Z sente como se já fossem décadas.]
E o que dizer, então, da garota de olhos verdes e cabelos de índia? Dela a Sra. Z aprendeu o que são amigos de verdade. Aprendeu a lutar pelos objetivos e a fazer limonadas de todos os limões que a vida lhe atira. Aprendeu que as coisas devem ser construídas. E que o tempo e o espaço, por mais que se coloquem de forma incisiva, jamais vão interromper laços entre irmãs que se escolheram.
Não se pode esquecer da garota da cozinha. De sorriso frágil e alma forte. Vencedora de todas as vicissitudes, que mostra a todo o momento que o caminho é você quem faz e que reclamar de nada adianta. Que luta e conquista suas coisas simplesmente porque merece. Porque faz por merecer.
E há outras garotas ainda: a garota dos gatos que mostra como ser ora frágil, ora forte, sem jamais perder a dignidade; a garota dos olhos azuis que lhe revela os segredos mais escondidos; a garota dos cabelos de mar, que provou que amizades surgem até nos momentos mais absurdos; a garota crescida que faz companhia nas horas mais necessárias. São essas garotas, todas elas, que a Sra. Z gostaria de levar consigo sempre, numa decisão de absurdo egoísmo.
Mas a Sra. Z sabe que não é possível, nem desejável, aprisionar suas garotas. O mundo precisa delas, sabe a Sra. Z, porque elas são raras. E, afinal, elas sempre estarão por perto. Porque vincos na alma não se desfazem tão facilmente.