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A Paixão segundo CR: São Paulo

Falar mal da vida nas grandes metrópoles, especialmente de São Paulo e do Rio, é o maior clichê dos últimos tempos. Canso de ouvir frases do tipo “a qualidade de vida no interior é muito melhor”, “Ninguém merece essa cidade”, “São Paulo não tem mais jeito”. Aí eu pergunto: jeito para quê, cara pálida? Não é, no mínimo, curioso que vinte milhões de pessoas vivam num lugar tão ruim quanto pintam por aí?

Nunca morei em São Paulo, apesar de passar lá boa parte da minha vida e ter nos seus cantinhos grande parte das minhas referências culturais, sociais e de personalidade. Não sei se viveria lá – confesso que tenho um medo danado daquele monte de prédio, monte de gente, monte de carros – nem posso falar sob a perspectiva de quem enfrenta o boitatá todos os dias (deixo isso para o Doni, que o faz tão bem).

Falo da minha perspectiva, a de quem adora andar no Centro Velho, pegar o metrô e chegar à Paulista em 15 minutos para tomar um café e comprar uns livros na Cultura. Da perspectiva de quem sente uma falta danada das exposições do MASP e da Pinacoteca. De quem vai à feira todas as quintas mas sabe que o melhor pastel é o de lá. De quem sonha com o Mercado Municipal e com seus doces portugueses, árabes, japoneses, suas frutas e condimentos. De quem compra filme na Conselheiro e depois fica economizando para durar até a próxima viagem. De quem vai à Galeria do Rock só para olhar as vitrines. De quem tem grandes amigos na selva de pedra, uma amizade sem preguiça de atravessar a cidade. De quem morre de saudades da pizza do Marco Luccio, da esfiha do Garabed, do café do Cafeera, das eclairs de chocolate da Ofner, do sanduíche de pernil do Estadão. De quem lê a Ilustrada e fica sonhando com os concertos, as peças, os shows, os restaurantes e os botecos.

Há problemas em São Paulo, como há em qualquer lugar. Boa parte deles, é verdade, é fruto de falta de planejamento urbano e falta de manejo ambiental. Isso sem contar na falta de noção do povo, que ainda insiste em jogar lixo na rua, não pressiona as autoridades por um manejo decente do lixo, das águas pluviais, que lava as mãos e deixa para reclamar quando acontece algum desastre. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa boa, que não consigo entender como podem falar tanto do que é ruim e esquecer o que é bom. Fica o conselho: Se você não conhece São Paulo, vá. Fique uma semana e conheça o melhor e o pior do Brasil. Você vai se supreender.

Mercado Municipal

7 comments Sábado, 17 Março

A Paixão segundo CR: Observar o Pôr do Sol

“Olhe o céu, Carla. Ele nunca mais se repetirá.”

Talvez essa seja a frase que eu mais ouvia quando pequena. Uma das pequenas loucuras de minha mãe é gostar de olhar o céu. Seja de dia – para ver as nuvens, seja de noite – para olhar as estrelas e a lua. Mas o verdadeiro espetáculo está na transição, quando o sol nasce ou quando ele vai embora.

“Você já imaginou / por que a lua foi embora? É que o sol pede para nascer / para que tudo possa crescer!”

Ok. Confesso que ver o sol nascendo não é minha especialidade, a não ser que eu tenha virado a noite. Mas o pôr do sol, talvez por ser rápido, sempre me fez sentir meio “sorteada”. E nunca, nunca eu vi um pôr do sol que não me fizesse – pelo menos – pensar um pouco.

Hoje ao procurar assunto para um post (há dias em que minha cabeça simplesmente não funciona) fui até a janela e fiquei olhando o sol se despedir. E vi aquela confusão de nuvens de chuva, nuvens leves, reflexos de todos os lados. Há como não se maravilhar ali?

Sim, esse é um post-pescoço. Talvez porque hoje seja um dia pescoço. Mas faz muito bem à gente virar um pouco o pescoço e apreciar o que o sol pode fazer simplesmente  por irradiar. Traz paz.

O que você faz para ter paz?

6 comments Segunda-feira, 26 Fevereiro

A paixão segundo CR: Comunicação

Reza a lenda que nascera um bebê magrinho. Alguns pensaram que não vingaria, aquela coisinha pífia. Outros se penalizavam. Todos cuidavam bem dele. Era fácil: o bebê não dava trabalho. Chorava pouco, comia bem. E, talvez pelo desejo de mostrar àquele bebê quem ele era, falavam com ele. O tempo todo. Cantavam. Sorriam. Levavam ao sol e à sombra, ao parque, ao supermercado. Falando, sempre.

Ora, o que acontece com um bebê que vive a ouvir pessoas falando consigo? Cresce falando – consigo e com os outros. Do “angu” aos quatro meses até as histórias loucas aos três anos, o bebê se tornaria um contador de histórias.

Mas histórias não são contadas apenas oralmente. Um dia o bebê – já um filhote – percebeu que algumas histórias vinham gravadas em blocos, com símbolos esquisitos. Alguns desses símbolos faziam sentido: “Mamãe, Coca Cola!” Outros, eram totalmente estranhos. Mas havia um lugar mágico onde esses símbolos passariam a fazer sentido. E lá foi o filhote – lindo, de saia vermelha e lacinho na cabeça – para o lugar mágico, em busca do significado dos símbolos esquisitos.

Ainda levaria dois anos até que o filhote compreendesse alguns daqueles símbolos. Alguns, sim. Outros, ainda hoje ela busca compreender.

O fato é que esse filhote cresceu e se apaixonou pela comunicação. Esse fenômeno doido que leva uma mensagem do emissor ao receptor – às vezes alterando todo o seu sentido. E descobriu que comunicar-se é das coisas mais apaixonantes. Junto com aprender, comer, dançar, fazer amigos – coisas que, no fim, são formas de comunicar.

Conto agora a história das paixões dessa pessoa – que já foi um bebê, um filhote e agora é adulta. Mas aos poucos. Saber e sabor são palavras irmãs e merecem muita atenção para se aproveitar cada pedaço.

Add comment Quinta-feira, 8 Fevereiro

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