[Mais uma música que marcou a minha vida.]
Era um daqueles dias chatíssimos, em que você quer ficar só e está rodeado de gente. Datas especiais, aquelas que eu odeio. Eu deveria determinar as datas especiais para mim, não a Associação Comercial de São Paulo. Mas o amor mais puro me chamava e não me restava opção além de me encapotar e encarar o tempo.
Quem conhece aquele lugar sabe o frio que faz lá. Mesmo no verão, com sol a pino e sensação térmica de quarenta graus, aquele é um dos mais gelados que eu conheço. Muito tempo ali dentro te gela os ossos. Isso sem falar nos robôs invisíveis que sugam a alma dos incautos que arriscam dar bobeira por lá.
Sem sol, a sensação térmica era de oito graus. Eu tinha duas opções: dar um jeito na minha vida, de uma vez, ou perder minha alma para os tais robôs invisíveis. A primeira pareceu mais razoável e lá fui eu: encapotada, de bota, cachecol, casaco, luva e medalha de São Bento para proteger a alma.
Saindo de casa me lembrei do porta cds. Já que eu tinha que sair de casa, entregar aqueles papéis e dar um jeito na minha vida, que pelo menos eu cantasse e dançasse um pouco no caminho. Peguei o primeiro cd que eu vi (os robôs já estavam aqui em casa, roubando a minha alma: era preciso correr) e entrei no carro.
No caminho, enquanto o cd tocava, eu fui pensando na minha situação: como disfarçar a dor incapacitante que eu sentia e me empoderar, enquanto meu coração estava quebrado ao meio e todo o desejo se esvaía em outro lado? Eu estava ferida. E doía.
Foi quando começou. Sem ninguém pedir, ele começou a falar aquelas coisas. Falou de um poder efêmero, mas que não é menor por isso. Um poder vindo da fonte mais explosiva e incontrolável e pura.
Chegando no meu destino, enxuguei as lágrimas (só eu sei quantas cairam no estofamento do carro naquela semana) e me recompus. No melhor estilo “eu sei-eu quero-eu posso-eu tenho” entrei no recinto e falei o que estava guardado. Com uma força que a ciência contemporânea não explica, consegui dizer o que queria. A resposta foi a que eu esperava, embora não fosse a que eu queria. De qualquer forma, havia uma resposta e isso bastava. Levantei e fui embora, para nunca mais voltar.
Desse dia em diante, quando a coisa aperta eu ouço Heroes. E, num instante, acredito que é possível, mesmo com as balas passando sobre a minha cabeça e o mundo todo indo contra o que eu quero. Que eu posso, simplesmente porque eu quero. Foi ele quem me ensinou. E por isso eu digo que, mais que marcar, ele salvou a minha vida.