Liberdade pra quê?
Eles estão brabinhos. É, no mínimo, irônico ver uma indústria que lucra em cima do adoecimento da população fazer um protesto “a favor da liberdade com responsabilidade”. Para a ABRASEL, que na última terça feira (01 de abril - uma data sugestiva, considerando os argumentos defendidos) iniciou um movimento contra a lei do Tabagismo, a lei seca e a MP que proíbe a venda de bebidas alcóolicas à beira de rodovias federais, o conceito de liberdade se resume a poder intoxicar-se, desde que gerando lucro, impostos, empregos.
“Não há provas de que fechar os bares reduz a criminalidade”, dizem eles. Esquecem da experiência de Diadema, que teve redução de 59% no número de homicídios após a implantação da Lei Seca (aprovada por 92% da população dois anos depois de sua implantação). “Todos têm o direito de fumar”, dizem eles. Esquecem da saúde dos garçons que são transformados em fumantes passivos. “Não somos responsáveis por motoristas mal educados”. Mas seguem lucrando em cima daqueles que virão causar 75% dos acidentes com vítimas fatais.
Sem falar na questão da propaganda. Na última semana, representantes do Movimento Propaganda sem Bebida entregaram ao presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arlindo Chinaglia, 600 mil assinaturas pedindo a proibição de toda propaganda de bebidas alcoólicas no país. Enquanto isso não acontece, a aprovação do PL 2.733 - que limita a propaganda de bebidas alcoólicas entre 21h e 6h - já é considerada um avanço importante. Esse projeto tramita em regime de urgência constitucional, mas a pauta da Câmara dos Deputados está travada por Medidas Provisórias.
Aí você me pergunta: “mas adianta proibir?”. Olha, eu te digo: ninguém vai morrer por falta de uma cerveja na viagem. Nenhum apreciador de cerveja, vinho (onde eu me incluo) ou cachaça, vai deixar de apreciar sua bebida por falta de propaganda. Por outro lado, a associação “mulher gostosa - cerveja”, “festa - cerveja”, “balada - ice”, “felicidade - alcoolismo” vai ficar cada vez mais fraca, cada vez mais menos freqüente na cabeça da população - especialmente na cabeça de crianças e adolescentes. E é disso que nós precisamos. Não podemos seguir achando normal que 33 milhões de brasileiros consumam álcool em excesso. Não podemos achar que é mera coincidência o fato de 70% dos laudos cadavéricos de mortes violentas indicarem a presença de álcool no organismo
Se você quer saber mais sobre o assunto, experimente visitar o Blog Uniad. Em meio a tanta informação desencontrada (e manipulada), é bom encontrar informação baseada em estudos científicos - e não simples “achismo”. Ou então faça uma busca no Scielo, onde você vai poder achar vários estudos sérios e bem conduzidos.
Leitura recomendada:
- Álcool e violência - a Psiquiatria e a Saúde Pública: Artigo do Dr. Ronaldo Laranjeira, Dr. Sergio Dualibi e Dra. Ilana Pinsky que relata a experiência de Diadema.
- Was Goliath blind or Ignorant? The struggle between evidence and passion in alcohol public policies in Brazil: Editorial da Revista Brasileira de Psiquiatria que questiona as políticas públicas para prevenção do alcoolismo no Brasil, assinado pelo Dr. Flavio Pechansky, Dra. Ilana Pinsky e Dr. Ronaldo Laranjeira. Em inglês.
- Governo apresenta projeto para restringir publicidade de bebidas alcoólicas na TV:Artigo do Observatório da Imprensa sobre o PL 2.733, com falas do presidente do Sindicato dos produtores de cerveja e do CONAR.
E se você quer ajudar…
4 comments Segunda-feira, 7 Abril