Archive for Novembro 9th, 2007
Brincando de mulherzinha
Ontem estava andando na rua e vi uma mulher com uma bebê, de uns oito ou nove meses. Devia ser sua filha, pela feição, pelos cabelos, pelo jeito que as duas se comunicavam com o olhar. Elas pararam na banca de revistas e eu, com a minha mania de antropóloga amadora, parei do lado para observar – discretamente.
A bebê usava um anelzinho de bolinha no seu-vizinho da mão direita. No bracinho esquerdo, uma pulseirinha – também de bolinhas. Brincos de bolinha, faixinha “espreme-o-cérebro” com fuxicos, vestidinho. Um autêntico projeto de perigosa peruinha, mas sem exagero. Linda, como são lindas todas as meninas dessa idade.
Então me lembrei da minha mãe. Ela conta que eu não ficava com anéis, pulseira, correntinha. Brincos, só usava os de argolinha porque não havia como eu arrancá-los. Até hoje eu sou assim: se por um lado sinto falta dos meus brincos e do meu anel assim que cruzo a porta em direção à rua, ao chegar em casa eles ficam ao lado das chaves na chapeleira. Acessórios, em casa, me pesam como se fossem bigornas gigantes penduradas. Até gosto de um colar, de uma pulseira, mas não me fazem falta nenhuma.
É nos cheiros e nas cores que minha mulherzice aflora. Gosto de sentir o cheiro do xampu, do hidratante, do sabonete quando saio do banho. De olhar para as minhas unhas curtinhas e vermelhas. Dos lábios com cor de chocolate e dos cílios pretos. De passar pela nuvem de perfume antes de sair de casa.
Quantas vezes, naqueles momentos tão preciosos (e tão necessários) de hidratar as mãos, me senti meio Macabéa e tive vontade de comer o creme de maracujá. É tão amarelo, tão perfumado que consegue ser mais apetitoso que a melhor das sobremesas. E o xampu de açaí? Minha glicemia se altera só de sentir o perfume. Poucas coisas são tão refrescantes quanto o hidratante de iogurte. E ainda tem a loção de frutas, o sabonete de andiroba, o óleo de buriti, sem falar no morango e no chocolate dos cabelos. Às vezes me pego imaginando o estrago que a cosmética moderna faria no estado mental da pobre Macabéa. (Eu conheço uma moça mui linda que quase comeu o sabonete de cupuaçu, mas agora parece que ela pegou gastura do cupuaçu e trocou pelo limão – que combina com a personalidade dela, segundo uma desaforada.)
E as cores? Há quem diga que mulheres que querem conquistar um amor devem pintar os olhos e as que querem conquistar uma aventura devem colorir os lábios. Espero que não seja verdade, ou minhas alergias constantes me impedirão de conquistar um amor: olhos negros somente em ocasiões muito especiais. Nunca li nada sobre as cores das unhas – embora tenha ouvido uma teoria interessante sobre as unhas pálidas e decidido adotar as cerejas, framboesas e jabuticabas nas minhas unhas curtinhas a partir de então.
Esses pequenos mimos têm o poder de restaurar o meu humor. Tem poder de colo quando meus refúgios estão longe. Se acompanhados de uma xícara de chá de hortelã fresco – como agora – conseguem transformar um dia que já começou tenso e que foi vivido em quase-choque em uma noite feliz. Descanso. Força. É isso que meus cheiros e cores fazem por mim: me fazem repousar ao mesmo tempo que me dão certeza que eu vou conseguir dar conta do que vem por aí.
8 comments Sexta-Feira, 9 Novembro
