Archive for Setembro 26th, 2007
Papo Psi: “(…) mas se o drogado fosse meu filho (…)”
Contexto:
(1) Para quem não sabe, eu pesquiso fatores de risco em adolescentes para uso de substâncias psicoativas. Desde fevereiro é isso que norteia pelo menos metade das minhas leituras, dos meus escritos, da minha participação em fóruns, congressos e seminários. Isso faz de mim uma chata que tem cinco pares de antenas permanentemente ligadas quando o assunto é uso de substância (de cigarro e álcool a ketamina). Apesar de saber que ainda tenho muita coisa para aprender, já sei umas poucas coisas que me fazem posicionar de uma forma um pouco mais incisiva quando o assunto é esse.
(2) Como estudante da área de Saúde (na Psicologia isso é meio nebuloso, mas vamos deixar assim aqui), eu espero um comportamento de Profissionais da Área de Saúde dos outros estudantes dessa área. O que é isso? Resumindo, falo em comprometimento ético, estudo, leitura, atenção triplicada aos próprios discursos e preconceitos. Entrou na faculdade, você já é profissional. Se comporte como tal.
Os fatos:
Lá estava eu, devolvendo uma pilha de livros para retirar outra na biblioteca. Até que chega aos meus ouvidos: “Mas se o DROGADO fosse meu filho(…)”; “Porque o DROGADO (…)”. Aquele DROGADO ecoou no meu cérebro. Vindo de um grupinho vestido de branco, doeu ainda mais. Se antes de começar a estudar Transtornos Relacionados ao Uso de Substância eu já tinha uma birra danada das palavras DROGADO e MACONHEIRO, agora a coisa piorou. A birra agora é contextualizada, marcada, cientificamente fundamentada.
Alguns estudos já recomendam que não se use mais o termo “Droga” para se referir a substâncias psicoativas. Primeiro porque o termo “droga” no senso comum não abarca o álcool e o cigarro (que são substâncias psicoativas com tantos danos – individuais e sociais – quanto as outras, sendo as primeiras substâncias causadoras de dependências no mundo, segundo a OMS). Segundo, porque “droga” tem uma conotação de coisa ruim e é um termo altamente preconceituoso, impedindo o diálogo já no começo.
Calma aí, Carla, você está dizendo que drogas são boas? Claro que não, padawan. Mas se você trabalha com um obeso, vai dizer para ele parar de ser guloso? Se você trabalha com um sedentário, vai dizer para ele largar mão de ser preguiçoso? É a mesma coisa com usuários/dependentes de substância: no momento em que você coloca nele a “culpa” pelo problema, acabou a empatia, acabou o diálogo.
Discursos revelam preconceitos. E para se trabalhar com questões como o abuso de substâncias não se pode ter preconceito. Para se trabalhar com adolescentes, então, menos ainda. Adolescentes são contestadores por natureza e precisam de um espaço de escuta. A política do “cala a boca que eu sei” não funciona com eles.
Nem todo adolescente que experimentar substância, se tornará dependente químico. Nem toda pessoa que faz uso de substância é dependente químico. A evolução de um quadro de uso experimental para um quadro de dependência está ligada a uma série de fatores, que vão de marcadores genéticos e existência de outros transtornos mentais (transtornos de ansiedade e depressão, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, esquizofrenia, para citar alguns) a fatores ambientais (adolescentes que não tem contato com álcool dificilmente se tornarão alcoolistas, por exemplo). A priori, não há como saber quem se tornará dependente e quem se manterá nos quadros de uso experimental ou recreativo: é uma loteria perversa. Talvez seja essa a maior razão para a preocupação de quem está perto desses adolescentes – pais, professores, profissionais da área de saúde – em relação a fatores de risco e proteção, elaboração de políticas públicas de prevenção, distribuição e propaganda (especialmente no caso do álcool e do cigarro) e de ações preventivas ou de intervenção onde o uso já está instalado.
Como disse a Dra. Analice Gigliotti na abertura do último Congresso da ABEAD, precisamos cuidar dos nossos jovens. E isso se faz com conhecimento, respeito e atenção. Jamais com preconceito.
Para saber um pouco mais:
- Pesquisa da UNIAD-UNIFESP revela que propagandas de bebidas alcoólicas violam 12 das 16 regras do CONAR, segundo adolescentes
- Entre mulheres, o uso de álcool é o terceiro maior causador do índice de internações
- Onze a cada cem bebem todo santo dia
- Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas
- Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Unifesp)
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