Archive for Março 17th, 2007
A Paixão segundo CR: São Paulo
Falar mal da vida nas grandes metrópoles, especialmente de São Paulo e do Rio, é o maior clichê dos últimos tempos. Canso de ouvir frases do tipo “a qualidade de vida no interior é muito melhor”, “Ninguém merece essa cidade”, “São Paulo não tem mais jeito”. Aí eu pergunto: jeito para quê, cara pálida? Não é, no mínimo, curioso que vinte milhões de pessoas vivam num lugar tão ruim quanto pintam por aí?
Nunca morei em São Paulo, apesar de passar lá boa parte da minha vida e ter nos seus cantinhos grande parte das minhas referências culturais, sociais e de personalidade. Não sei se viveria lá – confesso que tenho um medo danado daquele monte de prédio, monte de gente, monte de carros – nem posso falar sob a perspectiva de quem enfrenta o boitatá todos os dias (deixo isso para o Doni, que o faz tão bem).
Falo da minha perspectiva, a de quem adora andar no Centro Velho, pegar o metrô e chegar à Paulista em 15 minutos para tomar um café e comprar uns livros na Cultura. Da perspectiva de quem sente uma falta danada das exposições do MASP e da Pinacoteca. De quem vai à feira todas as quintas mas sabe que o melhor pastel é o de lá. De quem sonha com o Mercado Municipal e com seus doces portugueses, árabes, japoneses, suas frutas e condimentos. De quem compra filme na Conselheiro e depois fica economizando para durar até a próxima viagem. De quem vai à Galeria do Rock só para olhar as vitrines. De quem tem grandes amigos na selva de pedra, uma amizade sem preguiça de atravessar a cidade. De quem morre de saudades da pizza do Marco Luccio, da esfiha do Garabed, do café do Cafeera, das eclairs de chocolate da Ofner, do sanduíche de pernil do Estadão. De quem lê a Ilustrada e fica sonhando com os concertos, as peças, os shows, os restaurantes e os botecos.
Há problemas em São Paulo, como há em qualquer lugar. Boa parte deles, é verdade, é fruto de falta de planejamento urbano e falta de manejo ambiental. Isso sem contar na falta de noção do povo, que ainda insiste em jogar lixo na rua, não pressiona as autoridades por um manejo decente do lixo, das águas pluviais, que lava as mãos e deixa para reclamar quando acontece algum desastre. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa boa, que não consigo entender como podem falar tanto do que é ruim e esquecer o que é bom. Fica o conselho: Se você não conhece São Paulo, vá. Fique uma semana e conheça o melhor e o pior do Brasil. Você vai se supreender.

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