27 Citações: O Saci (Monteiro Lobato)

quarta-feira, 1 novembro at 2:22 pm 1 comentário

Tão impressionado ficou Pedrinho com esta conversa que dali por diante só pensava em saci, e até começou a enxergar sacis por toda parte. Dona Benta caçoou, dizendo:

- Cuidado! Já vi contar a história de um menino que de tanto pensar em saci acabou virando saci…

Pedrinho não fez caso da história, e um dia, enchendo-se de coragem, resolveu pegar um. Foi de novo em procura do tio Barnabé.

- Estou resolvido a pegar um saci – disse ele – e quero que o senhor me ensine o melhor meio.

Tio Barnabé riu-se daquela valentia.

- Gosto de ver um menino assim. Bem mostra que é neto do defundo sinhô velho, um homem que não tinha medo nem de mula sem cabeça. Há muitos jeitos de pegar saci, mas o melhor é o de peneira. Arranja-se uma peneira de cruzeta…

- Peneira de cruzeta? – interrompeu o menino – Que é isso?

- Nunca reparou que certas peneiras têm duas taquaras mais largas que se cruzam bem no meio e servem para reforço? Olhe aqui – e tio Barnabé mostrou ao menino uma das tais peneiras que estava ali num canto. Pois bem, arranja-se uma peneira desas e fica-se esperando um dia de vento bem forte, em que haja rodamoinho e zás! – joga-se a peneira em cima. Em todos os rodamoinhos há saci dentro, porque fazer rodamoinhos é justamente a principal ocupação dos sacis neste mundo.

- E depois?

- Depois, se a peneira foi bem atirada e o saci ficou preso, é só dar jeito de otar ele dentro de uma garrafa e arrolhar muito bem. Não esquecer de riscar uma cruzinha na rolha, porque o que prende o saci na garrafa não é a rolha e sim a cruzinha riscada nela. É preciso ainda tomar a carapucinha dele e a esconder bem escondida. Saci sem carapuça é como cachimbo sem fumo.

Eu já tive um saci na garrafa, que me prestava muitos bons serviços. Mas veio aqui um dia aquela mulatinha sapeca que mora na casa do compadre Bastião e tanto lidou com a garrafa que a quebrou. Bateu logo um cheirinho de enxofre. O perneta pulou em cima de sua carapuça, que estava ali naquele prego, e “até logo, tio Barnabé!”

Depois de ouvir com a maior atenção, Pedrinho voltou para casa decidido a pegar um saci, custasse o que custasse. Contou o seu projeto a Narizinho e longamente discutiu com ela sobre o que faria no caso de escravizar um daqueles terríveis capetinhas. Depois de arranjar uma boa peneira de cruzeta, ficou à espera do dia de S. Bartolomeu, que é o mais ventoso do ano. (Viagem ao Céu e O Saci. Monteiro Lobato.)

Uma das memórias mais felizes que tenho é de, aos oito anos, visitar uma vizinha que estava em meio a faxinas e emprestar vários livros infantis. No meio desses livros, havia a coleção completa de Monteiro Lobato, ricamente ilustrada. E ela me emprestou.

O Sítio do Pica Pau Amarelo, então, era apenas um programa de TV. Quando me dei conta de que a Emília existia em outros lugares além do Pirilimpimpim, não consegui escapar à vontade de ler todas as histórias do sítio.

Alérgica que sou, precisei deixar os livros no sol por vários dias até poder sentar-me na poltrona de leitura do meu quarto (aos nove anos já tinha poltrona de leitura com abajur) e ler todos os volumes. Fui em ordem de volumes, comecei por Reinações de Narizinho e então vieram Caçadas de Pedrinho, Viagem ao Céu, O Saci, O Poço do Visconde, Histórias de Tia Anastácia, Fábulas… Foi aventura para muito tempo (provavelmente mais que um ano).

Acabou o Sítio na TV, nunca mais se falou em Monteiro Lobato, mas essas histórias sempre ficaram na minha lembrança. Até que apareceu esse sítio moderno, com uma Emília diferentosa e uma dona Benta moderninha. Perdoem-me os modernos, mas internet no Sítio é demais para mim.

Enfim… cacei muito saci na minha vida. Até hoje, a primeira coisa que me vem à cabeça quando vejo um rodamoinho é “olha, um saci!”. Por isso Monteiro Lobato é importantíssimo para mim. Mais tarde, no colégio, me contaram que ele não gostava dos modernistas e que brigou com a Anita Malfatti. Foi quando comecei a chamá-lo de velho-chato-reaça. Mas foi rebeldia adolescente, e passou. (Também chamava Gilberto Freyre de velho-chato-reaça.)

É isso. Viva o folclore brasileiro, com seus sacis, mulas sem cabeça, iaras, boitatás e negrinhos do pastoreio. Deveria ser obrigação de toda família ensinar seus filhos a caçar saci. Acreditar no invisível. Conhcer suas raízes, sua cultura. Aí não seria necessário brigar por causa do Halloween ou por causa do estrangeirismo: o que vem de fora nunca vai conseguir tirar o que está dentro de nós.

p.s.: Esse post deveria ter sido publicado ontem, no dia do Saci. Inventaram essa história de dia do Saci para brigar com o Halloween, esquecendo que o folclore brasileiro já tem seu dia: 22 de agosto.

p.s.2: Encontrei, na biblioteca da faculdade, as obras infantis completas do Monteiro Lobato, numa edição de 1962. Dá até vontade de trazer para casa, já que elas provavelmente serão destruídas (ou ficarão abandonadas nas estantes). Coisa mais linda de se ver, as aquarelas das ilustrações.

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Por que na festa da democracia não tem brigadeiro? Mais sapo, mais xuxu… (Respondendo)

1 Comentário Add your own

  • 1. Arivonil  |  quarta-feira, 1 novembro às 6:09 pm

    Eu quero ver a coleção do velho Monteiro, como faço?
    Coisas bonitas e interessantes como essa têm que ser vistas e saboreadas com toda tranquilidade merecida!

    Eu quero ver voce, como faço?

    Beijos

    Re: De qual coleção do velho Monteiro você fala? Se for a da FAG, tem um volume cá em casa. Se for a da minha infância, não há como. Devolvi para a vizinha depois de ler inteira.

    Como faz para me ver? Me ligue.

    Responder

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