Archive for Outubro 9th, 2006
Angelus
Não sei se é zeitgeist, coincidência ou apenas sincronicidade, mas o fato é que nas últimas 24 horas me peguei muito pensando em fé. Na minha fé e na fé da humanidade. Nos motivos que nos levam a crer e nas coisas que criamos para não nos sentirmos sozinhos.
Assim como a troca de bens e de mulheres, a crença na existência de algo maior – ou externo, está presente em quase todas as culturas e sociedades primitivas. Até onde eu sei - se eu estiver errada, por favor alguém me corrija – o ateísmo é uma condição moderna. Assim, enxergar a fé como uma necessidade básica e original do homem não me parece algo tão absurdo. A busca do propósito surge com a busca de explicações: Por que chove? Por que há a noite e o dia? O homem primitivo, dessa forma, explicava o seu mundo e a si mesmo com a fé. Deuses foram criados. Historicamente, alguns panteões foram relegados à condição de mitologia, enquanto outros se estabeleceram de forma dogmática (utilizando-se, muitas vezes, de aparato político, econômico e militar).
Com a valorização das explicações científicas houve uma mudança nos padrões para o estabelecimento da fé. Não me basta saber o quê, é necessário saber como, por quê. Deuses não podem existir per se, tudo tem sua origem. Aliado, talvez, a indícios de falência generalizada nas instituções durante as décadas de 1960/1970, começam a surgir explicações “científicas” para as verdades milenares. Seriam os anjos extraterrestres? Eram os deuses astronautas? E assim a humanidade caminha em busca de um deus “claro”, “científico”.
Em contraposição a esse movimento, começam a surgir aqueles que vêem na ação social o grande papel da religião. No caso da Igreja Católica brasileira, isso se reflete na criação das Comunidades Eclesiais de Base, das Pastorais e da Teologia da Libertação – que acaba por ser calada, por se afastar demais dos dogmas católicos.
Independentemente da via escolhida para a fé, tudo passa pela percepção humana. Sem maiores tergiversações, a consciência ainda não foi totalmente compreendida pela ciência. Qual é o seu processo, de onde vem e para onde vai? A única coisa que é certa, nesse ponto, é que toda a experiência humana é interpretada de acordo com as vivências prévias do indivíduo. Essa premissa é fundamental para entendermos de onde vêm a nossa fé e, a partir daí, aceitarmos a fé alheia.
Sempre haverá a possibilidade de um último propósito, não explicado. A ciência, por suas características, jamais chegará a esse último propósito. Rubem Alves costuma dizer que os diferentes tipos de conhecimento são redes diferentes, utilizadas na pescaria de peixes diferentes. Qualquer tentativa de misturá-las será frustrante, na melhor das hipóteses. Na pior hipótese, resultará em falácias e pseudo-ciências.
Para construir a tolerância, evitar mortes em nome de deuses intangíveis, aprender a ouvir o outro e compreender suas razões, é fundamental que haja uma compreensão do processo que nos leva a crer em A ou B. O que não é conhecido é temido. O que é temido, acaba por ser atacado.
Sigamos então em paz, com nossos deuses são criados por nós. Que eles nos ajudem a viver outra das idéias redundantes da humanidade: o melhor caminho é viver fazendo o bem, ajudando o próximo e evitando dar maior importância a coisas que não fazem nenhuma diferença em nossa vida.
3 comments Segunda-feira, 9 Outubro